Sobre o Paraíso

O Paraíso, que em princípio entendemos como a morada do Criador, é descrito por Jesus com uma segurança assombrosa, porém é uma realidade de difícil compreensão com nossos sentidos humanos.

Michael chega a mencionar, em outras partes do diário, que nem mesmo o Paraíso é o fim do caminho. Ao estarmos “reintegrados” a Deus, a jornada segue com novas criações.

O que fica claro é que, apesar de o tempo não ser uma medida válida nos mundos espirituais, há uma longa preparação, em diversas moradas, até estarmos prontos para chegar ao Paraíso.

Vol.3 | Pag.348 | 22/04/0030

– Antes mencionaste o Paraíso. Existe, na realidade, ou se trata de uma bela metáfora?

– Vós o associais a um lugar pleno de felicidade e não estais equivocados. Mas enquanto permanecerdes sujeitos à carne, jamais podereis aproximar-vos sequer de seu magnífico e imenso esplendor.

Eliseu, que não conhecia o desânimo, insistiu:

– Poderias defini-lo em quatro palavras?

– Centro de gravidade absoluta. Ou melhor, ilha nuclear de luz.

– Meu Deus! – exclamou meu irmão. – Então é certo!…

E antes que Jesus pudesse prosseguir, foi diretamente ao ponto:

– Muitos seres humanos pensam que, ao morrer, entrarão de pronto no Paraíso. Estão errados?

– Querido amigo, o homem é como uma criança: possessivo, inconsciente e aferrado unicamente ao mundo que o rodeia. Eu te disse que o caminho para a Perfeição, para o Paraíso, ou, se preferes, para nosso Pai, exige uma longa preparação em outras “moradas”…

Vol.3 | Pag.351 | 22/04/0030

– Por que não nos falas um pouco mais desse Paraíso?

O Mestre deu de ombros.

– Falarei, se assim o desejas, mas será como se vós tentásseis fazer compreender a meus pequeninos de hoje o sentido de vossa missão… Antes deveriam conhecer muitas coisas.

Deu um profundo suspiro e, durante uns segundos, entreteve-se – suponho – na busca das palavras adequadas.

– O Paraíso ou a ilha nuclear de luz deriva da Deidade, ainda que não se possa dizer que seja uma Deidade. As criações materiais não são apenas uma parte da Deidade: são uma consequência. Poderíamos dizer que, sem qualificação especial, é o Absoluto do controle material-gravitacional, pela “causa central primeira”. Essa imensa “ilha”, cujas dimensões não podeis conceber com a limitada mente humana, permanece imóvel. É a única criação estática no universo dos universos. A ilha do Paraíso tem um lugar no universo mas carece de posição no espaço. Trata-se de uma ilha eterna, origem efetiva dos universos físicos passados, presentes e futuros…

Para que negar! No meio da explicação já eu havia voltado a “perder-me”.

–… O Paraíso é um termo que inclui os Absolutos centrais pessoais e impessoais de todas as fases da realidade universal. O Paraíso pode implicar e reunir todas as formas da realidade. Deidade, Divindade, personalidade e energia espiritual, mental ou material. Tudo tem o Paraíso como ponto de origem, de função e de destino, no que se refere a seu valor, seu significado e sua existência de fato. Mas nada de confusões. A ilha eterna não é um Criador. É um controlador único de numerosas atividades universais. De um extremo a outro dos universos materiais, o Paraíso influi na conduta de todos os seres relacionados com forças, energias e potências. Em si mesmo, porém, é único, exclusivo e isolado dos universos. Não representa nada e nada significa. Não é uma força nem uma presença. O Paraíso é, simplesmente, o Paraíso.

Vol.11 | Pag.164 | 24/02/0028

– Você poderia assimilar que no Paraíso - a casa dele - coincidem todas as realidades imagináveis: presentes, passadas e futuras?

– Existem negros no paraíso?

Bartolomeu, o urso de Caná, era incorrigível. Mas nós apreciamos a pergunta.

Jesus ficou sério e respondeu:

– Não, no Paraíso não há negros, nem orientais, nem brancos…

Surpresa.

E ele continuou:

– … No reino do Pai Azul não há raças, sexo, ricos ou pobres, nenhum sábio ou tolo, nem judeu ou gentio…

– Não tem sexo? Gritou Tomé, desolado.

As risadas vieram, inevitáveis. O Mestre também desenhou um distante sorriso.

– Não é necessário, disse o Rabi. Lá, a felicidade tem outro rosto…

– A verdadeira felicidade é o resultado de conhecer a verdade.

Ele olhou para os íntimos e entendeu que eles não o estavam seguindo. E ele acrescentou:

– Essa felicidade tem um sabor espiritual. Mas agora você não está treinado para intuí-lo.

E ele continuou respondendo à pergunta inicial: por que é tão difícil entender Deus?

– Você poderia entender que naquele reino espiritual do qual eu falo tanto com você não há tempo?

– Que chato! O urso lamentou.

– Caro Bartolomeu, – respondeu o Galileu, – em verdade lhe digo, que naquele Reino, ninguém fica entediado.

– Trabalharemos? Disse Mateus Levi.

– Muito e bem…

Murmúrios de desaprovação aumentaram. Mas Jesus continuou feliz:

– Você trabalhará no que realmente gosta…

E deixou no ar. Sítio estava boquiaberto, confuso. Ou confusa?

– Você poderia descrever a grandeza de um dos sete superuniversos que cercam o paraíso?

Isso me interessou bastante, mas não intervim. Eu era apenas um observador. Ou não?

O Mestre olhou para os presentes. Eles também não entenderam. Levantou, pegou um galho e desenhou algo na terra esponjosa, ao lado da fogueira. Todos nós nos espreitamos, intrigados. Ele desenhou sete círculos, em um agrupamento, e um menor no centro.

Ele apontou com o graveto cada um dos principais círculos e proclamou:

– O Pai Azul governa esses superuniversos. Esse é o reino do qual eu falo e que vocês terão que atravessar após a morte…

– E o círculo central? - aventurou-se o Zelote.

– O paraíso. Fim da viagem…

O Filho do Homem fez uma pausa e arredondou:

– Fim da viagem… por enquanto.

Yu sorriu e sorriu e tomou notas em sua tábua encerada.

Eu entendi que Jesus - mais uma vez - usava símbolos. Ou não?

– Você poderia entender, continuou ele, que os deuses não têm começo nem final?

– Quantos deuses existem? Gritou Felipe.

Jesus não se cortou:

– Milhares!

Os discípulos balançaram a cabeça.

E eles murmuraram: "Ele perdeu o julgamento…".

O Mestre não prestou atenção.

– Você pode imaginar um Deus mãe?

Eles ainda estavam perdidos. Suas palavras nos transbordaram.

– Como é o paraíso? André perguntou.

Ele apontou para o pequeno círculo central e resumiu:

– Não há palavras… é absoluta grandeza, beleza e verdade.

Mas que forma ela tem? - O urso pressionou.

Jesus sorriu e desistiu.

– Lembre-se de uma ilha… Uma ilha de luz que não se move. Lá você chegará, como Eu lhe digo, no devido tempo… sem tempo. Lá você vai abraçar o Pai Azul, não antes.

– Não verei Deus, bendito seja, quando eu morrer?

A pergunta de Mateo Levi recebeu um movimento silencioso e negativo de cabeça do Mestre. Isso foi tudo. E cada um interpretou como poderia ou como sabia.

– Você pode imaginar o nada?

– Você pode aceitar que aquelas estrelas que você vê são parte do meu reino?

Alguns olharam para cima. As estrelas brilhavam com mais intensidade, como se soubessem.

– Você é o rei? Sítio perguntou.

– Eu sou… eu criei essas estrelas.

Eles também não entenderam. Para os judeus, as estrelas eram os olhos dos falecidos, que olhavam para a Terra. Os olhos dos justos. Gentios e ímpios moravam ao sol, na parte mais profunda do mundo.

– Você já esteve no paraíso? Perguntou o Zelote timidamente.

A resposta do Rabi me desarmou:

– Sim, muitas vezes. É por isso que eu sei o que quero dizer.

– Quanto tempo dura o caminho para o Paraíso?

Jesus olhou para Yu, o chinês, e o fez com infinita ternura. A resposta para o seu pergunta era outra aproximação da verdade:

– Você não pode medir com palavras ou números.

Felipe, da cozinha, falou por conta própria:

– É mais longe que a China?

– Outra coisa, respondeu o Rabi, rindo.

– Existem casas? - O urso estava interessado.

– Não, Bartolomeu… pelo menos como você as conhece.

– E onde mora o Pai Azul? Insistiu Bartolomeu.

Silêncio. E Jesus levou o dedo indicador esquerdo à testa. Então ele esclareceu:

– Abbā tem sua morada, é claro, mas ele também habita em você. Já o falamos. Eu diria que ele se sente feliz em sua mente.

– Se Ele é luz, disse Felipe, – Ele precisa comer?

Os discípulos e os supostos confidentes riram com entusiasmo.

– Mesmo que eu quisesse, – o Rabi se resignou, – eu não poderia deixar claro…

– Faça um esforço, implorou o urso.

O Mestre sorriu levemente e balançou a cabeça. Ele indicou as sombras que projetou os discípulos mais próximos da estaca e respondeu a Bartolomeu:

– Se você puder conversar com essas sombras e responder, eu vou lhe dizer como o Pai Azul se alimenta.

Em outras palavras: tentar descrever Ab-bā é um esforço humano impossível. Eu deduzi isso.

– Qual é o verdadeiro nome de Deus?… bendito seja.

A pergunta de Mateus Levi permaneceu no ar.

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