O Que Fazemos Aqui?

A pergunta é das mais comuns entre os inquietos e inconformados buscadores da Verdade.

A crença no Princípio Criador e o reconhecimento da presença de um Fragmento Divino em nós mesmos, aumenta muito a percepção de nosso próprio papel nos planos do Criador.

Estar nesta vida é experimentar a imperfeição. Uma experiência que começará a preencher o “cálice da personalidade”, ou seja, desenvolver nossa alma, que é imortal. Viver, portanto, é uma oportunidade de transformar os bons e maus momentos (que todos vivemos) em aprendizados para nossa evolução.

Há que se compreender ainda, o importante conceito do “tikkun”, que poderíamos traduzir como o nosso contexto de vida: o local que nascemos, condição social, raça, cultura, momento histórico, nossa condição física, e principalmente nossa trajetória durante toda a vida. Trajetória esta que definirá nossas experiências e construirá nossa personalidade, bem como interferirá na experiência e formação da personalidade daqueles que interagiram conosco.

Embora não seja possível entender isso claramente, Michael ensina que o “tikkun” de cada um é planejado antes do nascimento, ou seja, não há acaso nos acontecimentos da nossa vida. Tudo obedece a uma ordem. Até mesmo o momento e a causa de nossa morte são definidos previamente, e por nós mesmos.

Entender que cada um tem seu tikkun, traz uma compreensão maior sobre a razão do sofrimento humano. As maldades de alguns, a crueldade, a tirania, a superstição, o fanatismo, as guerras, a fome, as doenças… embora seja muito triste ver as pessoas sofrendo, tudo passa a fazer um pouco de sentido ao entender que cada indivíduo “escolheu”, de certa maneira, viver exatamente desta forma, a experiência terrena.

Nenhum tikkun é reprovável. Até mesmo Judas Iscariotes exerceu a missão que lhe cabia. A conclusão é que não devemos julgar ninguém. Todos agem por razões que muitas vezes não entendemos, que podem nos entristecer ou nos machucar, mas cada um está cumprindo seu plano.

Esta clareza ao entender o papel de cada um, nos dá em boa medida a resposta à pergunta “O que fazemos aqui?”.

Vol.8 | Pag.414 | 30/01/0026

– Sabe o que é o tikkun?

Assenti com a cabeça. Para os judeus, o tikkun era uma espécie de missão sagrada. Traziam-na cada homem e mulher ao nascer. Segundo os muito religiosos, o tikkun tinha um objetivo básico: recuperar e reconstruir a Shekinah ou Divina Providência, fugida do Templo por causa dos pecados de Israel, e nesse momento em poder do invasor, Roma. Cumprir o tikkun era contribuir com a chegada do Messias libertador, fazendo a vontade do Santo. O tikkun, além disso, era o único caminho para alcançar a salvação.

O homem que cumpria seu tikkun era abençoado por Deus. O que o repudiava, ou descuidava, ficava amaldiçoado e sujeito ao estado diabólico. Chamavam-no "homem qlifoth”. Estas, digamos, eram as linhas gerais do tikkun. É óbvio, cada escola rabínica acrescentava novas interpretações e detalhes. Esta, como já mencionei, era uma das idéias que movia a vida de Yehohanan: derrotar aos ímpios e recuperar a Shekinah. Mais exatamente, arrebatar a "Luz Divina" de Roma, e depositá-la em mãos dos sacerdotes e doutores da Lei. Eles saberiam lhe devolver a primitiva unidade.

Também vim para mudar isso…

– Crês nessa missão sagrada?

– É certo que existe um tikkun para cada ser humano, mas não como o interpretam os Rabis…

Aquilo, de fato, era novo para este explorador. E Jesus avançou um pouco mais, cautelosamente…

– O homem não precisa ser salvo. A imortalidade não depende de seu tikkun. Recorda que és um presente do Pai. És imortal desde que és imaginado pelo Amor. És imortal incondicionalmente.

E explicou:

– O homem e a mulher nascem com um tikkun: viver, simplesmente…

– Viver?

Havia mostrado um pouco disso no Hermón…

– O que quer dizer?

– Aproximar-vos dos mundos do tempo significa experimentar a imperfeição. Viver o oposto a sua natureza original, a do espírito. É lógico que nasçais para viver…

Algo nos disse, efetivamente, nas neves do Hermón. É importante viver porque esta é nossa única oportunidade. Depois, após a morte, será diferente. Será outra situação, outro corpo…

– Sigo sem compreender…

– Já te disse. Também vim para mudar isso. Vim para proclamar que cada vida, cada tikkun, tem sentido. Cada tikkun é uma cadeia de experiências enriquecedoras. Nada é fruto do acaso. Tudo, no reino de meu Pai, está sujeito à ordem, e ao Áhabah…

– Tem sentido a dor, a doença, a escuridão…?

– Perguntou-me isso no kan de Assi, e te repito o mesmo. Há lugares, como este mundo, onde tudo é possível, inclusive a maldade. É parte de um jogo que não estás em condições de intuir. Crês em minha palavra?

– É óbvio, Senhor…

– Bem, então, aceita-a. Cada tikkun é minuciosamente planejado… antes do nascimento. E todo tikkun obedece a um porquê. Ninguém é rico, ou negro, ou escravo, ou cego, ou paralítico, ou ignorante, ou pobre, ou rei, por acaso. Ninguém vive as experiências que lhe cabem viver simplesmente porque sim, ou por um capricho da natureza.

– E quem decide que alguém viva na sabedoria? Quem estabelece que alguém seja mais e outro menos?

Jesus sorriu, malicioso. Comecei a aprender que aquele sorriso, em particular, significava "terreno perigoso". Mas respondeu:

– Possivelmente você mesmo…

– Eu escolho a pobreza ou o sofrimento? Não acredito…

O sorriso permaneceu, firme e imutável. Não houve palavras. Foi a melhor resposta. Depois, após o eloqüente silêncio, proclamou:

– A isso vim, querido malak: a trazer a esperança, a presença de Abbã aos que a perderam. A isso vim: a proclamar que cada vida, cada tikkun, obedece a uma ordem, embora não possais compreender…

– E ao nascer, tudo fica esquecido…

O Mestre referendou o comentário com um leve e afirmativo movimento de cabeça. Ele não ficou alheio a essa circunstância. Necessitou muito tempo - quase trinta e um anos - para saber quem era em realidade…

– Tudo tem sentido – prossegui, revelando meus pensamentos. – Só é questão de viver…

– Viver na segurança de que todos são iguais, e importantes, para o Pai. Todos cumprem uma missão. Todos caminham na mesma direção, embora não pareça…

– A isso vieste…

– Sim, para refrescar uma memória adormecida. E sei, também, que minhas palavras serão esquecidas e tergiversadas…

– E não te importas?

– A primeira coisa que deves aprender esta noite é que nenhum tikkun é reprovável.

Cada pessoa, uma missão. Cada ser humano, um destino. Essa foi a revelação que recebi naquele dia em Beit Ids, e que me apresso a transmitir tal como Ele o quis. Yehohanan, seu tikkun. Judas, o Iscariotes, o seu. Poncio, também. Cada homem e mulher, o que houverem escolhido - e enfatizou -…"antes de nascer". Pouco importa o porquê de cada tikkun. Estamos aqui, e essa é a única realidade. A partir dessa fria noite, em frente à gruta, não tornei a erguer o punho contra Deus, nem contra os homens. Não faz sentido. Agora acredito entender muitas das injustiças, ou supostas injustiças, que vejo na vida. Antes sentia piedade dos mendigos e desafortunados. Agora também me comovem, mas menos. Agora sei que eles quiseram assim, e devo respeitar. É uma ordem que foge a meu curto entendimento, mas que aceito, porque a informação nasceu d’Ele.

Vol.9 | Pag.526 | 15/06/0026

O que é a vida?

– Ninguém merece uma sorte assim…

Ele soube que eu estava me referindo a Yehohanan. Guardou silêncio durante alguns segundos e finalmente perguntou:

– Sabes por que as formigas não olham para o céu?

– O que é isso, uma adivinhação? O Mestre sorriu, divertido.

– Não exatamente…

E insistiu:

– Sabes?

Nunca havia pensado nisso. Sinceramente, não tinha nem idéia. E foi isso que respondi.

Jesus replicou rápido:

– Não olham para o céu porque não sabem que existe céu!

– Não se deve falar de boa ou má sorte. Tu não…

Desta vez entendi ainda menos, e Ele sabia.

Então Jesus apontou o arco-íris duplo e prosseguiu:

– Se o bom Pai é capaz de imaginar semelhante beleza, não crês que saberá considerar, igualmente ou muito mais, a vida das criaturas humanas?

– Tens razão. O Pai é extraordinariamente inteligente. É capaz disso e de muito mais, porém continuo sem entender. A vida é muito dura…

– A vida é a vida, querido malak. A vida não é o que parece…

E esclareceu na mesma hora:

– A vida humana, naturalmente. A vida está pensada para que pareça outra coisa…

– Espera - eu o interrompi. - Eu me perdi…

– A vida não é somente o que se vê…

Tratei de ajudar em sua explicação.

– Sei que existem coisas que não vemos…

Era isso que dizia o óstraco que acabara de descobrir sobre o travesseiro da minha cama.

– Agora eu falo da vida, não da realidade…

E completou sutilmente:

– Esta, a vida humana, não é a realidade. Tu sabes disso. Algum dia, regressarás à realidade. Porém, não me distraias…

Não era a minha intenção. Ao contrário.

– A vida humana está imaginada de forma que se acredite que é a única que existe. É outra genialidade do Pai.

– Certo - ratifiquei. - A maioria dos humanos considera que a vida é a única coisa que se tem, a única coisa real…

– E assim deve ser. Do contrário, a vida seria uma comédia.

– Ah! E não é o que é?

– É, meu amigo impaciente, porém não devia parecer…

– Estou ouvindo…

– Viver é uma oportunidade. Lembra-te? Também já falamos sobre isso…

Assenti com a cabeça.

– Viver é a oportunidade de fazer e de sentir coisas que nunca mais voltarás a fazer ou sentir…

Olhou-me com curiosidade. E perguntou:

– Estou indo bem?

Sorri, desconcertado.

– Creio que sim, meu querido Homem-Deus. Tu és o Chefe…

– Pois bem, então escuta o Chefe: viver é um presente. Que te foi dado para que experimentes…

– Para experimentar a dor, a ignorância e o desespero…?

– Para viver tudo isso e muitíssimo mais.

– Prossegue, prossegue…

– Viver é aproximar-se do tempo. Senti-lo. Degustá-lo. Ali, de onde tu vens e para onde regressarás, não há tempo. E aqui, na vida terrena, o lugar onde se pode experimentá-lo. Depois, quando voltares à realidade, viverás sem tempo. Não achas que é bom que fiques consciente dele?

– Entendo. Para a maioria dos seres humanos, o tempo é somente algo que passa…

O Mestre prosseguiu:

– E quanto à dor, à ignorância e ao desespero, agora tu não entendes, mas também são experiências únicas. Só na matéria, na imperfeição, é possível existir a tristeza, a impotência do doente e a amargura do que sofre e de quem vê sofrer… Amanhã, quando já não mais estivermos aqui, nada disso será possível. O reino de Abbã, também falamos sobre ele, é um reino com outras leis: a perfeição invisível.

– Experimentar… Essa é a questão…

– Experimentar - resumiu o Galileu – para que ninguém precise te contar…

– Viver para que ninguém me conte. Genial!

– Vejo que começaste a compreender…

E o incentivei para continuar. Aquilo começava a fazer sentido.

– Viver é experimentar a limitação porque amanhã serás ilimitado.

– Viver é duvidar porque, em teu estado natural, não poderias te permitir a isso…

– Viver é estar perdido, temporalmente. Depois acharás a ti mesmo, outra vez…

– Viver é aceitar a morte; tu que, na verdade, jamais morreste nem voltarás a morrer…

– Viver é divertir-se no aparentemente pequeno e insignificante. Amanhã não será assim. Amanhã, quando regressares à realidade, grandes coisas te esperam…

– Não sei - comentei quase que para mim mesmo. - Tudo isso é belo. Tem sentido. Mas a dor, em compensação… Eu não quero viver para sofrer…

– Eu te disse que não gostarias…

– De viver para sofrer?

– Não foi exatamente isso o que eu disse. Viver é muito mais. Sofrer é uma parte do todo…

– O que se entende por viver?

– Tu me surpreendes, querido mensageiro. Viver é tudo aquilo que sejas capaz de imaginar.

Eu esperava uma resposta mais concreta. Ele me viu duvidar. Esboçou um sorriso astuto e enumerou, sem interrupção:

– Viver é despertar, regressar, chorar, sonhar, ver e não ver, querer e não poder, cair, levantar-se, saber e ignorar, despertar na obscuridade, ficar sem palavras, não partir, aborrecer-se, amar e deixar de amar, ser amado e deixar escapar, ver morrer e saber que vai morrer, trabalhar sem saber por que nem para quê, entregar-se, acariciar a criança, não esperar nada em troca, sorrir ante a adversidade, deixar que a beleza lhe abrace, ouvir e voltar a ouvir, contradizer-se, esperar como se fosse a primeira vez, envolver-se no que não quer, desejar acima de tudo, confiar, rebelar-se contra todos e contra si mesmo, deixar fazer, e sobretudo, olhar o céu…

– E tudo isso para que ninguém te conte depois que morrer…

– Algo assim, querido malak…

– A vida não consiste em ser bom ou mau?

O Mestre riu com vontade.

– Como é que te ocorres esse tipo de coisa? A bondade e a maldade formam parte da vida, mas esse não é o objetivo. Viver, como eu te disse, é muito, muitíssimo mais… O Pai tem tudo ordenado.

E apontou para o arco-íris duplo.

– Ainda que não compreendamos.

Olhou-me intensamente e perguntou:

Entendes agora? A vida tem sido desenhada de forma que pareça outra coisa…

Eu me rendi. O Filho do Homem nunca mentia. Assim é porque assim o digo. A vida é muito mais do que dizem e tem sido estruturada de maneira que não conheçamos sua verdadeira intencionalidade. E a única forma de vivê-la com intensidade e sem armadilhas. Não, não é possível criar armadilhas com a vida…

– Porém – eu me lamentei, – por que tudo isso não é conhecido?

_– É para isso que vieste: para descobrires que o céu existe, querido nemalâ (*Nota: nemalâ significa formiga)…_

Lentamente, o arco secundário desapareceu. Foi mágico.

Foi como se a natureza (?) quisesse sublinhar as palavras do Mestre…

Permaneceu somente o arco-íris primário, extremamente brilhante, com um lado escuro e outro iluminado.

A vida e suas duas caras… Foi um sinal… Mensagem recebida.

E o Filho do Homem murmurou:

– Eleva teu coração, querido malak!… Tudo está disposto e ordenado para o bem, ainda que agora não saibas olhar o céu… Confia. Eu te ajudarei. Para isso estou aqui. Tu farás chegar as minhas palavras ao teu mundo e muito mais: há gente que vive sem saber que vive…

E o arco-íris extinguiu-se.

Vol.9 | Pag.755 | 30/10/0026

Não devemos julgar

– Teus irmãos cumprem um papel… E para isso eles vieram… Por que julgar o que tu desconheces?

– Não entendo…

– Querido malak, tentarei me aproximar da verdade…

Isso eu entendia. Não era fácil encontrar as palavras certas.

– Nada é que parece ser. Nada é o que acreditas. Tu não estás aqui para o que supões estar…

– E para que estamos na vida?

– Já falamos sobre isso, tu te lembras?

– Sim, disseste-me que a vida é uma série de experiências, ou mais ou menos assim…

O Galileu sorriu.

– Mais ou menos… A vida é uma experiência…

Não o deixei terminar.

– Isso.

Voltou a sorrir e continuou:

A vida é uma experiência suficientemente importante para que não se veja sujeita ao acaso.

Ele me olhou intensamente. Acreditei saber por onde ia.

– Quer dizer que está tudo programado?

– Algo assim…

– Então a liberdade humana…

O Galileu ficou sério, contudo não respondeu de imediato. Continuou caminhando entre os juncos. De repente, parou. Em frente a Ele se abriam duas pequenas trilhas.

E perguntou:

– Qual delas devo escolher: a da esquerda ou a da direita?

– Não sei…

E escolheu a que corria para a esquerda. Depois de três passos, ali se deteve de novo, me olhou e declarou:

– Nada é acaso. Quem sabe chegues a acreditar que tenhas escolhido o caminho da esquerda porque assim tenhas decidido.

Titubeou. Não sei se Ele se arrependeu do que havia dito.

– Não é tu que eleges, e ao mesmo tempo é.

– Não entendo…

– A casualidade não existe. São os sábios os que se escudam nela.

Tinha razão. Em meu tempo são os cientistas os que mais utilizam esse vocábulo. O que não se encaixa com as ideias deles é falso ou casual.

– Por que me dizes que sou o que escolhe, mas não…?

Voltou a hesitar. Compreendi que fazia um grande esforço. Estava a ponto de revelar um segredo.

– Tu escolhes… antes de te aproximares da vida. Depois, já na matéria, acreditas que és livre porque caminhas pela esquerda ou pela direita…

Sorriu com certa amargura.

– Não escolhes, porque já o fizeste.

– E por que sonhamos com a liberdade?

– Porque a vida está magistralmente projetada. Também já conversamos sobre isso…

– Eu não me lembro de ter escolhido nada…

– Claro…

– Como "claro"?

– Assim é… Estou te dizendo. A vida é um prodígio de imaginação. Se recordasses disso, nada seria igual…

Jesus nunca mentia. Eu já disse isso muitas vezes. Assim, ainda que não visse sua exposição com muita clareza, eu aceitei. A liberdade é um belo sonho.

– Respondi à tua pergunta? Eu a havia esquecido.

– Que pergunta?

– Por que não se deve julgar um irmão…

Assenti em silêncio. E ele arrematou:

– Julgar não é justo nem ético. Quem sabe sobre o que tenha escolhido teu irmão e por quê?

Deixou que os segundos se perdessem na vala do tempo e acrescentou:

– Todos cumprem um papel. Tudo está ordenado.

Não pude conter-me e, tendo em vista o que o aguardava, exclamei:

– E se alguém é torturado e executado injustamente?

Ele me olhou intensamente de novo e senti fogo em seu interior.

– Não julgues, malak. O mal também tem seu papel no jogo. Assim está concebido na imperfeição. Não serão julgados nem mesmo do "outro lado", como disse teu irmão… Não te esqueças: a ordem é muito rígida. Nada é o que dizem que é. Nada é o que vendem. Tudo é infinitamente melhor do que se pode supor.

– Mas o mal…

– O mal não procede do norte, como declara Jeremias. Eu vim para mudar isso…

Não sei o que se passou, mas eu pensei no meu tempo e no "norte", no meu país…

E o Filho do Homem fez outra declaração histórica:

–… O mal acompanhará o ser humano até que os anjos rebeldes sejam julgados. O mundo então retornará à luz.

– Quer dizer que o mal, como o conhecemos, tem os dias contados?

– Não tenhas a menor dúvida, malak. Nada é para sempre.

A curiosidade foi maior e me venceu, e acabei perguntando:

– Quando será isso?

Jesus voltou a sorrir com ar maroto, mas não respondeu, pelo menos com palavras.

Afastou-se uns passos e procurou o pântano. Eu fui atrás Dele. Partiu um junco, colocou-se de cócoras diante do barro e começou a escrever, em aramaico, sobre a negra e macia superfície.

Isto foi o que consegui ler:

E eu o vi distanciar-se, sorrindo, como se estivesse se divertindo. Ali ficou o junco, cravado no barro.

A lagoa terminaria por apagar a frase. A que Ele se referia? Quem era o terceiro mensageiro?

Vol.9 | Pag.800 | 12/01/0027

Judas também tinha seu Tikkun e cumpria um papel

Instantes depois, o Filho do Homem caminhou até Judas Iscariotes, colocou as mãos sobre a cabeça dele e, sem tocar os cabelos, deixou que se passassem alguns segundos.

O silêncio seguiu trovejando.

Alguns discípulos, intrigados, levantaram a vista discretamente, contemplaram a cena e voltaram a baixar os olhos.

E o Mestre começou a cantar. Era um cântico suave, melodioso e cheio de mistério. Parte do que disse está por ser decifrado.

– Quando regressares, querido Judas, tua dignidade será restabelecida.

O Iscariotes se remexeu, inquieto. Não compreendeu, ninguém entendeu. Eu, então, muito menos.

Vol.9 | Pag.810 | 12/01/0027

– Mestre, o que é o reino dos céus? Como é possível que alguns miseráveis, como os kittim, sejam chamados para esse reino?

Jesus negou com a cabeça, desaprovando a pergunta do Zebedeu.

Mas respondeu:

– Todos os homens e mulheres, amigo João, desempenham um papel na vida. Agora tu não entendes. Sê humilde e aceita que Abbã é antes e mais do que tu…

Desta vez foi João que balançou a cabeça.

– O reino dos céus é baseado em três coisas essenciais - prosseguiu o Filho do Homem.

– O reconhecimento da soberania do Pai, a aceitação da filiação entre as criaturas e a aplicação do princípio dos princípios: "que a minha vontade seja a sua vontade".

Ele olhou para eles, um por um, e proclamou de forma bastante clara:

– Esta é a mensagem que eu quero que transmitais aos homens.

Vol.11 | Pag.131 | 05/02/0028

E Hípias continuou com as perguntas:

– Mestre, por que estou aqui, por que nasci?

– Eu lhe disse: se você é uma criatura ascendente: para experimentar. Se você estiver descendo: para cumprir um trabalho ou, talvez, para experimentar.

– E como posso saber se estou subindo ou descendo?

– Pergunte ao seu nitzutz, sua 'centelha'…

– Não entendo muito bem, – interrompeu Tomé. O que é um Deus que sabe tudo que deve experimentar?"

– A experiência é insubstituível. Os Deuses sabem tudo, mas isso não significa que eles tenham experiência em certos assuntos. Por exemplo: na imperfeição. Você pode saber tudo sobre o Mar de Tiberíades (peixes, correntes, ventos, etc.), mas até mergulhar nele, você não saberá realmente o que é o Yam.

– E o que se pode aprender da imperfeição? Tomé insistiu.

– Olhar para o tempo é uma experiência única. De onde vêm os Deuses, não há tempo. Compreende? Além disso, você pode experimentar o riso, a beleza da imperfeição, solidão compartilhada, mal-entendidos, amor e desgosto, bom vinho, leitura, ódio, minhas palavras, ansiedade ante o esquecimento, o medo de não saber quem você é, a escuridão na memória, o erro indesejado, o mal inimaginável, a amizade que substitui o amor, a doença que subjuga… São cadeias e cadeias de experiências.

– Você está dizendo, Mestre, que no 'além' não há riso?

Ficamos perplexos com a questão do Urso de Caná.

– O riso, no Reino de meu Pai, é interior e, portanto, mais gratificante. Eu lhes disse: mesmo que vocês imaginem esse reino, vocês sempre ficarão aquém. Não há palavras.

– E para onde devo ir? O filósofo grego perguntou-lhe novamente.

– Para o Paraíso. Eu também te disse isso. Mas isso vai acontecer mais tarde…

O Galileu percebeu que suas palavras não eram precisas e tentou corrigir:

– Eu tenho um problema. Minhas palavras não estão de acordo com a verdade. Após a morte, não há tempo. Conseqüentemente, a vossa entrada no Paraíso não ocorrerá “mais tarde”. Acontecerá.

Nós também não entendemos.

– O que é o Paraíso? Mateus Levi, que estivera em silêncio o tempo todo, exigiu.

– Palavras, – qualificou o Rabi, – limitam meu coração. Lamento não poder me expressar como desejo. É a lei. Os segredos da "vida após a morte" são delicada e meticulosamente guardados. Mas farei um esforço. O paraíso é o lar do Pai Azul e dos Deuses que o acompanham e complementam. É um lugar físico onde habita o infinito, onde nascem a força, a inteligência e a misericórdia. Todas as realidades imagináveis vivem lá.

– Eu não posso explicar o que é o Paraíso, assim como não posso explicar a Zal qual é a palavra, não importa o quanto eu tente.

Vol.11 | Pag.388 | 01/12/0028

Amar as Pequenas Coisas

– Quanto mais sensível, mais amante do pequeno… Quanto mais amor, mais vontade de ficar dentro, com a "centelha"… O pouco é saboreado; o muito transborda… No pequeno é o remédio para quase tudo… Beba sensações… Não considereis o mundo como um vale de lágrimas; um pouco como uma bigorna forjada… Você está no pequeno - no imperfeito - de sua própria vontade; Portanto, não perca tempo levantando o punho contra os céus… Não planeje além da sua sombra… Cada pequena coisa é uma grande verdade… O melhor amanhã é agora… Que importa se ninguém acredita em você?… Assine a paz com o silêncio… Pratique quando ninguém está praticando… Saboreie o bom vinho de cada minuto… Pendure-se de cabeça para baixo… Quando puder, pendure uma gaiola de pássaros canoros em seu coração… Permita que outros cometam erros… Não carregue… A alegria virá quando você não procurar por ela… Não suba na corda da ganância: ela sempre escorrega… O Pai Azul cuida do dinheiro e do bem-estar…

Mateus Levi, o administrador geral do grupo, interrompeu o sermão de Galileu e perguntou:

– Eu não deveria me preocupar com dinheiro?

– Eu já vos disse muitas vezes, respondeu o Filho do Homem com um certo cansaço na sua voz. O básico, as necessidades diárias, não são da sua conta…

– Mas, – eles protestaram – devemos trabalhar!

– Eu não disse que não, respondeu o Galileu imediatamente. Estou dizendo que você não deve se atormentar com o "como vou viver". Essa matéria é a competência direta do amor de Abbā. Ele sabe o que você precisa antes mesmo de abrir a boca.

E Mateus Levi proferiu uma frase que se tornaria famosa entre os íntimos:

– Descobrir o Pai Azul é encontrar uma mina de ouro que, além disso, funciona por conta própria…

Jesus agradeceu o comentário muito preciso e continuou:

– Não procure professores. A sabedoria está sempre convosco: está dentro de vós…

Vol.11 | Pag.600 | 20/07/0029

– As pequenas coisas impedem que você naufrague… As pequenas grandes coisas o trarão de volta ao silêncio, ao som do reino invisível e alado, sua verdadeira pátria… Pratique as pequenas coisas e você encontrará grande felicidade…

– E o que quero dizer com uma pequena grande coisa? – perguntou o Mestre.

Ele pegou uma taça de vinho, ergueu-a e deixou a luz das lanternas tirar seu brilho. Então ele continuou, feliz:

_– A carícia quente de um bom vinho… Lehaim… (*Nota: Lehaim é um brinde à vida) O mar, a qualquer momento… Silêncio, sempre… Enrolando-se no testamento do Pai Azul quando tudo parece perdido… Desistir sem que ninguém saiba… Pão fresco e seu rastro perfumado… A dança do fogo, em sua casa, enquanto o vento ameaça lá fora… Um olhar e sua mensagem… Mais silêncio… Outra dúvida, quando ele chega e agita tudo… Desdobrar um livro e beber seu conteúdo… Uma canção à distância… Uma carícia no tempo… As gotas de chuva, perdidas na janela… Um sussurro no meio do amor… Um suspiro no tempo… Nada a fazer quando tudo ainda está por fazer… Uma surpresa… Dê um "agora"… Mancha as tuas palavras com bondade… Um sorriso livre… Um dia sem promessas… O barulho da neve sob os pés… O frio no meu rosto… Uma onda que chega, submissa… Corte o prato… Mudando uma pedra de posição… Uma lua cheia de presságios… Uma lua que ri aos olhos da amada… Nadar nua… Contando rugas… Ideias culinárias… Um melão no início quente da manhã… A tempestade, ao longe… A pequena mudança de riso… A doce carícia do jasmim… Uma bolha de sabão que flutua… Uma borboleta em uma perna… Um arco-íris para você… Uma rosa violeta que olha para você…_

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