Sobre a Sabedoria

Aqui fica destacada a lição de Aba Saul, um judeu ancião morador da aldeia de Salem, que Jasão conheceu no ano de 25 e que pertencia à Ordem dos Melquisedeques.

“O sábio verdadeiro é aquele que dispõe de conhecimentos sobre si mesmo.”

E ainda:

“Armazenar informação não é sabedoria”.

Aquele que adquire a verdadeira sabedoria - aquela sobre si mesmo, ou seja, que consegue responder “de onde vim?”, “o que faço aqui?” e “para onde vou?” - não sai proclamando em voz alta suas descobertas, até porque é um conhecimento que só diz respeito a si mesmo.

Cada um tem sua própria verdade e esta é muito sutil, vive escapando pelos dedos.

Como disse Jesus, as dúvidas são inevitáveis e duvidar faz parte da criatura que vive na imperfeição. A dúvida é saudável e é o caminho para a verdadeira sabedoria.

Vol.7 | Pag.449 | 02/11/0025

Jasão conversa sobre Sabedoria com Aba Saul:

– O sábio verdadeiro, meu amigo, é aquele que dispõe de conhecimentos sim, mas sobre si mesmo. Por outro lado, armazenar informação não é sabedoria.

Acrescentou ainda, certo do que expunha:

– O que sabes de ti mesmo?

Capturou-me.

– Sabes de onde vens, por que estás aqui e qual é o teu destino?

Teoricamente sabia. Só na teoria…

– Poucos são os que conseguem descobrir isso. E pobre daquele que consegue!

– Pobre?

– Sim, o homem luta até que lhe chega esse momento. Se uma das verdades lhe vem ao encontro e o torna um sábio, adeus! Nada será igual…

Eu já havia ouvido esse conceito…

– O homem luta até que os céus lhe desvendam seu destino…

Quem me havia dito algo similar? O Mestre?

– A verdadeira sabedoria, aquela que informa sobre ti mesmo, acaba te isolando. Como te digo, nada é igual a partir desses momentos. Sabes mas não deves proclamar. Conheço homens que, mesmo sabendo quem são, continuaram na luta…Esses não são homens… São Deuses! São príncipes encarnados!

Por fim lembrei. Foi nos "treze irmãos". Foi aquele nômade. Também falou do "olho do Destino"…

– Fica difícil de entender - acrescentei, recuperando um dos conceitos.

– A verdadeira sabedoria separa?

Compreendi que ele tinha dificuldades para expressar-se. Essa é outra característica do sábio.

– Cada qual fará bem em ocupar-se da água do seu próprio poço. O Destino é o responsável de enchê-los ou esvaziá-los, de acordo… Só aquele que recebeu essa revelação entende o que te digo.

– Sim, a sabedoria afasta…

Vacilou, e em seguida retificou:

– Ainda que o mais exato seja falar da verdade… É a posse de qualquer uma delas que separa.

– Sabedoria e verdade são a mesma coisa?

– Sim, por isso aquele que "sabe" não levanta a voz. Por isso as verdades não devem ser proclamadas…

– Isso não parece justo…

– Já te falei sobre isso: as verdades são incendiárias. Deixa o Destino fazer o seu trabalho.

Não interfiras. Cada qual tem sua hora marcada. Insisto: não pretendas tirar água de dois poços ao mesmo tempo.

– Mas quanto a mim, por exemplo, quero saber e tu estás proclamando a tua verdade…

– Não estou proclamando, querido Jasão… Eu sussurro…

– Isso é fazer ciladas…

Aba Saul, sorridente, tomou as minhas mãos e as acariciou com doçura.

– O primeiro que faz ciladas é Abbã…

E apressou-se a explicar.

– Tudo sai Dele e para ele retorna. Os círculos são o seu jogo favorito. Iniciamos um caminho sem saber que retornaremos ao ponto inicial. Dize-me, quem faz trapaças?

Vol. 9 | Pag.644 | 11/08/0026

Ter dúvidas é bom

E em um desses entardeceres em frente ao yam, o Mestre explicou, não sei dizer se claramente:

– Ninguém é inferior a ninguém. Todos são superiores a todos…

Nem Tiago nem Judas de Alfeu conseguiram perceber, de momento, as bordas daquela verdade.

Jesus sabia e tentou incentivar os discípulos confusos:

– Depois da morte, as dúvidas permanecerão na tumba. Ânimo!

Tiago o olhou, intrigado. Como Jesus podia saber que ele era todo dúvidas?

O Filho do Homem desceu de novo ao poço de seus pensamentos, leu todos e sorriu ao Zebedeu. Depois explicou:

– Vós não sabeis disso, meus amigos, mas a dúvida é o estado natural do ser humano. O espírito não duvida. A matéria, sim…

Judas de Alfeu não se atreveu a abrir a boca. Não tinha muitas dúvidas. Era realmente um homem de sorte.

E Jesus continuou:

– O começo da sabedoria não é o medo, como afirma o salmista, mas a dúvida…

O Mestre fazia alusão ao Salmo 111 (10): "O temor do Senhor é o princípio da sabedoria; têm bom entendimento todos os que cumprem os seus preceitos…"

– E direi mais: a dúvida prolonga a vida. Não existe nada mais frágil do que a autoconfiança.

O Galileu apontou o lago. O maarabit, o vento do oeste, ondulava as águas e fazia ondas que vinham até a praia. Algumas se recusavam a morrer em terra.

– Vedes as ondas? As dúvidas são assim, inevitáveis… A própria vida as impulsiona. Não temais. Duvidar é um triunfo.

E enfatizou a expressão "triunfo": le nétzaj netzajim.

– Animai-vos! Vesti-vos com as dúvidas, como Moisés se vestiu com a nuvem, então segui em frente e subi a montanha…

O Mestre se referia ao que estava escrito no Êxodo (24, 18), mas os íntimos também não compreenderam.

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