Nitzutz - A Centelha Divina
Nitzutz - A Centelha Divina
Talvez o conceito mais importante para o autêntico “Buscador da Verdade” seja a aceitação, por assim dizer, de que há um fragmento Divino na mente de cada ser humano.
Este pressuposto, além de vir de encontro a um sentimento comum a boa parte dos indivíduos (um impulso involuntário de pensar em sua própria vida e morte), torna mais fácil para a limitada compreensão humana a existência de um Princípio Criador. Pois não conseguimos compreender uma realidade tão grande como a onipresença e a onipotência de Deus fora de nós.
Desta forma, ao invés de chegar a Deus olhando para o exterior, essa busca se simplifica ao olharmos para dentro de nós mesmos.
A perfeição da natureza nos indica que tudo o que existe foi imaginado e criado por uma inteligência superior, mas conhecer profundamente toda a criação e todos os fenômenos da natureza demandaria séculos de estudo para qualquer um que quisesse absorver este conhecimento.
Michael tentou transmitir exaustivamente esta mensagem e explicou conceitos importantíssimos e que devemos saber diferenciar. Além da Centelha Divina (também referida como Nitzutz ou Nishmat Hayim), Jesus explicou o que é a Alma (ou Nismah), a Mente (Bal) e o que ocorre com nossas memórias (Dikron) quando morremos.
Vol.3 | Pag.348 | 22/04/0030
– Então, quando veremos Deus face a face?
– Às vezes, – lamentou-se o Ressuscitado – pareceis cegos… Por que o buscas fora se Ele te doou parte da sua essência?
Meu companheiro, a julgar pela expressão do seu rosto, não compreendeu.
– O Pai disse: “Vós não podeis ver meu rosto, já que nenhum mortal pode ver-me e viver.” Pois bem, digo-vos que nenhum ser material poderia contemplar o espírito de Deus e preservar sua existência terrestre. É impossível aos grupos inferiores de seres espirituais e a todas as classes de personalidades materiais captar a glória e o resplendor espiritual da presença da personalidade divina. A luminosidade espiritual dessa presença do Pai é uma luz que nenhum mortal pode suportar, que nenhuma criatura material jamais viu nem poderá ver.
– Em resumo – deduziu Eliseu em sua honesta simplicidade – depois da morte tampouco O veremos…
– Meu filho, na imensidade da criação, Deus não trata diretamente com as personalidades dotadas de vontade. Isso faz Ele de outras maneiras: como te disse, “instalando-se” no mais íntimo de cada ser e através de um vasto circuito de personalidades celestes.
– Avalias bem o que acabas de dizer?
Suponho que aquela perplexidade no rosto do Mestre foi simulada.
– Se não te entendi mal – prosseguiu Eliseu –, Deus “instala-se” em cada um de nós…
O Senhor não tinha pressa para responder. Concedeu-se uns segundos, com isso multiplicando a ansiedade de meu irmão.
– Essa, meu pequeno curioso, é a maior verdade que poderás ouvir de meus lábios.
E, deslocando o olhar para mim, enfatizou:
– Teu irmão o sabe: a falsidade não pode aninhar-se em minha alma. E te digo que cada criatura mortal dotada de inteligência e vontade recebe diretamente do Pai uma “centelha” dele mesmo, enviada do Paraíso e que vive no órgão mental dos mortais, ajudando-os a desenvolver sua alma imortal, destinada a sobreviver por toda a eternidade. A presença deste “ajustador divino” (como poderíamos qualificá-lo) na mente humana é revelada graças a três fenômenos experienciais: a aptidão intelectual para conhecer Deus, a necessidade espiritual de encontrá-lo e o intenso desejo de toda personalidade de parecer-se a Ele.
Vol.6 | Pag.397 | 21/08/0025
– Ouvi atentamente. Escutai os dois. O que agora vos anuncio fará parte da mensagem quando chegar a minha hora.
O rosto, iluminado pela fogueira, tomou um ar solene. E tive a intuição de que se preparava para confessar alguma coisa transcendental. Não errei.
– Dizei-me, alguma vez menti para vós?
O "não" foi instantâneo.
– Muito bem, eu vos digo que o Pai já está em vós…
Sim - concordei -, faz um momento que o invocaste. Foste muito generoso ao nos converter em teus embaixadores.
– Não - ele se apressou em corrigir, – isso só foi uma consagração formal. Mas Abbã já estava em vossas mentes.
– Claro - aproveitou Eliseu -, muitas vezes pensamos nEle.
O Mestre voltou a negar com a cabeça.
– Não compreendeis. Eu vos estou falando de um dos grandes mistérios da Criação. O Pai, em sua infinita misericórdia, em seu indescritível amor, há muito instalou-se em vós…
Ao notar nossa confusão, aprofundou.
– Cada criatura do tempo e do espaço recebe uma diminuta fração da essência divina. O Pai, como eu vos disse, embora único e indivisível, se fraciona e vos procura. Instala-se em cada um de vós, os menores do reino.
– Trata-se de uma parábola?
– Não, Jasão, isto é real. E não me perguntes como ele faz isso porque ninguém sabe. É uma de suas grandes prerrogativas. Ele, assim, "sabe". Ele, assim, "está." Ele, assim, se comunica com a criação e se faz uno com cada mortal inteligente.
– Mas como é isso? Como um Deus pode habitar no meu interior?
O Mestre não respondeu às lógicas questões formuladas pelo meu irmão. Limitou-se a revolver as brasas, levantando um fugaz crepitar. Depois, atraindo nossa atenção, continuou:
– Vedes as centelhas? Pois na verdade eu vos digo, alguma coisa semelhante acontece com o Pai. Uma "centelha" divina, uma parte dEle mesmo voa até cada criatura e a torna imortal.
Suponho que ele tenha conseguido perceber a perplexidade daqueles exploradores. Sorriu amorosamente e exclamou:
– Foi justamente para isso que eu vim. Para revelar ao mundo que sois filhos de um Deus… E o sois por direito próprio.
Vol.6 | Pag.404 | 21/08/0025
– Deixar que a "centelha" interior faça o resto? Eu não sabia que o Chefão trabalhava…
O Mestre rendeu-se encantado.
– O que pensavas? Achavas que essa presença divina era um enfeite?
– E o que é que Ele faz?
– Já disse: te "puxa"… Essa misteriosa criatura se ocupa, entre outras coisas, de preparar tua alma para a vida futura, para a verdadeira vida. De certa forma, vai te treinando…
– Pois eu não percebo nada.
– É lógico. O Chefão é muito silencioso. Não gosta de gritos. Ele limita-se a polir e retificar teus pensamentos. Mas o faz na sombra de tua mente. Escondido. Quase um prisioneiro.
– E como posso ajudá-lo?
Jesus sorriu contente.
– Estás fazendo isso agora. Basta tua boa vontade. Basta o desejo de amar, de prosperar em conhecimentos, de aceitar que Abbã é teu Pai. Ele, pouco a pouco, estreitará essa comunicação. E chegará o dia em que não vai precisar mais de símbolos para te dizer: "Coragem! Estou aqui. Escuta minha voz. Sobe. Vem até mim…".
– Mas, Senhor, não entendo. O Chefão deveria ser mais claro. Por que não fala um pouco mais alto?
Meu Deus! Como o Galileu gostava daquelas perguntas do meu irmão!
– Não quer e não deve. Além do mais, tu mandas…
– Eu? Um "destroça-patos"?
– É assim. Isso é o estabelecido. Te darei um exemplo: tua mente é um navio, Abbã é a "centelha" interior, o piloto, e tua vontade é o capitão. Tu mandas…
– Um navegante?
– O melhor! Pena que não vos deixeis guiar por Ele! Com freqüência seu rumo é alterado por vossa incompetente natureza humana e, sobretudo, pelos medos, idéias preconcebidas e sabe-se lá o que mais…
– Vejamos – intervim sem muita certeza, – se bem entendi, a boa administração dessa "centelha" interior não depende daquilo em que a pessoa acredita ou deixa de acreditar, e sim da vontade, do desejo de encontrar o Pai. Estou errado?
– Não estás, Jasão. Falaste acertadamente. O êxito do meu Pai está intimamente ligado ao teu poder de decisão. Se tu confias, Ele ganha. Pouco importa no que acreditas. Se o procuras, se o persegues, a "centelha" controla o rumo. E tu, pouco a pouco, vais te tornando uno com "ela".
Ficou em silêncio. Acho que entendeu que suas palavras eram belas, esperançosas, mas, às vezes, de difícil compreensão.
– Eu vos direi um segredo…
Agitou de novo as chamas e, em tom mais sereno, com uma eloquência abaladora, afirmou:
– Observai a madeira. Faz-se una com o fogo e ambos, inevitavelmente, sobem. Enfim são verdadeiramente livres… Olhai!
E apontou a trêmula espiral de fumaça, fugindo na noite.
– Olhai bem! Agora, fogo e madeira são um só… Compreendestes?
Claro que sim…
– Muito bem, este é o segredo. O homem, a madeira, que consegue identificar-se, fazer-se uno com o Abbã, o fogo… não morrerá! Seu invólucro mortal será consumido pela "centelha", pelo Amor, e não precisará ser ressuscitado…
– A presença divina que habita em ti é uma luz, um cintilar do Pai… com sua própria personalidade. E, portanto, uma criatura, embora ainda desgarrada do Criador. E não perguntes mais. Eu já disse: também Abbã tem seus segredos…
– E quando Ele se instala no ser humano?
Jesus de Nazaré, contente com a insaciável curiosidade do meu companheiro, sorriu condescendente.
– Isso depende dEle… Mas, geralmente, quando a criança se torna capaz de tomar sua primeira decisão moral.
– E o acompanha até a morte?
– Além da morte. Lembra: sois imortais. O Pai, quando dá, não faz as coisas pela metade.
Vol.6 | Pag.447 | 08/09/0025
Centelha, Alma, Mente e Memória
O Mestre, ao se referir à alma, empregou um termo - nismah - que me confundiu. O vocábulo, em aramaico, significa "espírito ou alento". E, não sei por que, eu o associei à "centelha" divina, Abbã. E perguntei:
– "Centelha" e alma imortal são a mesma coisa?
O Rabi, impotente diante da anemia das palavras, deu um ruidoso suspiro. E tentou descer ao nosso nível.
– Não, Jasão, não são a mesma coisa. Mas não te atormentes. Tudo será revelado… em seu devido momento. Essa presença divina, a "centelha", quando morreres, se ocupará de guardar tua memória. Teu dikron. Ela a manterá a salvo até o momento de tua ressurreição.
De novo Jesus leu o meu íntimo e corrigiu:
– Eu disse dikron (memória), não bal (mente). Esta, como parte integrante do teu cérebro físico, se dissolverá com o corpo.
Então, retomando a minha pergunta, completou:
– A alma imortal é outra criatura, independente da memória e da mente física. E essa, a nismah, é acolhida depois da morte pelo teu anjo da guarda. Ele cuida dela e a conserva, também até o sublime instante da ressurreição.
– Alma imortal… "centelha" divina… mente humana… memória… Senhor, que confusão!
– Querido "ajudante", confia em mim.
– Senhor - eu o interroguei perplexo -, o que acontece no instante exato da ressurreição?
– Simples: alma e memória se reúnem. E caminham juntas… para sempre.
– E a "centelha"?
– Eu também já te disse isso: não te abandona jamais. É o terceiro "viajante" a caminho da Perfeição.
– E essa viagem, Senhor, quanto tempo dura?
– Se eu expressá-la em termos humanos, querido "ajudante", não compreenderias.
Vol.8 | Pag.397 | 16/01/0026
– Crês que o que distingue o ser humano é sua inteligência?
Seguiu com a vista fixa nas estrelas. Parecia esperar algo…
– Eu diria que sim…
A afirmação não resultou muito convincente, reconheço-o. Tampouco sabia o que se propunha. Quem isto escreve só perguntou pelo significado da "centelha".
Ele percebeu o receio, e foi direto:
– Chegou o momento de abrir seus olhos. É um malak, e deverá transmiti- lo…
Assenti em silêncio, mas com a atenção posta nas constelações. Apresentariam-se as "luzes" de novo? Era isso o que aguardava? Acredito que o ser humano, em efeito, não tem acerto…
– A nitzutz, disse-lhe isso, está no interior…
A escuridão dissimulou minha estupidez. Uma vez mais, não prestava atenção às suas palavras…
– Por que lhe inquietam as luzes, se podes desfrutar de uma imensamente mais intensa e benéfica?
– A que te refere, Senhor? Uma luz em meu interior? Não compreendo…
– Ele, efetivamente, deu-nos o melhor presente que possa receber um ser humano: a "centelha" – também utilizou a expressão nishmah hayim ou "Espírito de origem divina" – é o Pai, em miniatura. A "centelha", ou "vibração", é o que realmente nos distingue do resto do criado. Chamou-a também de "dom de presente celeste" e "dom do fogo branco" (!).
– Está falando da "luz" da Torá? – o interrompi como um perfeito estúpido – O livro dos Provérbios diz que "ela é luz" (6, 23).
– Não, querido mensageiro. A "luz" da que te falo não pode ser gerada pelo homem. Em realidade, não é luz. Já te disse, mas continuas atento a outras luzes. A "centelha" é Ele, que desce. Outro grande mistério: o maior, no mais pequeno. Cada ser humano a recebe. Cada ser humano é depositário do Número Um. Recorda? O Amor (Áhabah), o que sustenta o criado, concentrado no interior: o Pai (Abbã) e o Espírito (he) no coração e na mente (lebab).
– Está insinuando que o Pai está em mim?
– Não insinuo, querido malak: afirmo. Essa "centelha" é e não é Deus…
Ele sabia que não entenderia, e recorreu, apressado, a um exemplo:
– O que recebe, esse presente azul, é o Pai, mas não o é, da mesma forma que uma gota de água pertence ao oceano, mas não é o oceano.
Ele falou disto nas cúpulas do Hermón, mas não com tanta minuciosidade.
– Uma gota de Deus? E por que em algo tão ignorante e primitivo como eu?
Sorriu, malicioso, e replicou:
– Os filés de felafel estavam em seu ponto…
Desisti. Já o havia dito: a presença da "centelha", ou da "vibração divina", ou da gota azul, era o mistério dos mistérios. Sabia por que, mas não era o momento de revelá-lo. Tampouco era a chave. Desde meu humilde parecer, o importante era a revelação em si mesmo: o ser humano é portador do Pai! Para ser fiel a suas palavras: portador de uma fração, de uma "centelha", do Amor! E continuou falando, cheio de ternura…
– Essa "centelha", como disse, distingue-nos. É a inveja das criaturas que vivem na perfeição. Só "desce" nos seres do tempo e do espaço. Alguns "K" - insinuou- aparecem à imperfeição do material para chegar a sentir ao Pai em seu interior…
(*Nota: “K” é uma criatura perfeita e é descrito por Jasão neste compilado, no capítulo de Anjos e Criaturas)
– Nunca pude imaginá-lo… Não é a inteligência o que nos distingue do resto do criado, mas Ele… E como se instala? Quando chega? Como posso saber…?
– Pois bem, meu querido malak, essa é a resposta a uma de suas perguntas: quando chega a "centelha divina" ao ser humano? Quando a criança toma sua primeira decisão moral: "Não baterei no cão, porque não é correto… "
– O que acontece com os seres humanos que não desfrutam da capacidade de tomar decisões morais? Há milhões deles. O que devia supor em relação às crianças com deficiências psíquicas? A "centelha" os habita?
O Mestre censurou minha dúvida. Não o disse assim, mas sei.
– Crês que o Pai esquece dos melhores? Para ocupar esses postos é preciso muita coragem… Quase todos são "K".
E acrescentou, categórico:
– Nesses casos, o Amor desce muito antes…
– E onde reside esse fragmento do Pai?
O Mestre ia de surpresa em surpresa. Moveu a cabeça, negativamente, e perguntou a sua vez:
– Por que esbanja seu tempo com essas questões? O que importa qual seja o cenário no que habita a nitzutz? Já te disse lá em cima…
E apontou para o penhasco da escuridão.
Certo. Ele mencionou o interior (lebab). Mais exatamente, o coração e a mente, ao mesmo tempo. E, obstinado, insisti:
– Mas onde?
Jesus, que não desejava retroceder, decidiu me cortar:
– Se você me disser onde reside a inteligência, eu te direi em que lugar permanece a "centelha"…
Utilizou o termo aramaico sokletanu, e muito habilmente. Sokletanu era sinônimo de "inteligência", mas no mais amplo sentido da expressão: capacidade para sobreviver, sentido da intuição, possibilidade de expressão em territórios como o da beleza, a justiça ou a generosidade, e faculdade de compreensão.
Era impossível. Nem sequer hoje, em nosso "agora", sabe-se com segurança o que é a inteligência e, muito menos, onde descansa. Rendi-me. Estava claro que eram outras as questões que valiam a pena ser levantadas…
– E para que serve? O que ganho ao recebê-la em minha mente?
Jesus riu a valer. Suponho que me considerou incorrigível. A verdade é que não foi intencional. A palavra "mente" escapou, sem mais. Ou foi o subconsciente?
– Está bem… tu venceste: na mente…
– Na mente? Mas isso é como não dizer nada…
Guardou silêncio, divertido. Em realidade, sempre era eu quem resultava desconcertado naqueles jogos dialéticos. Melhor dizendo, naqueles supostos jogos dialéticos.
O Mestre recuperou o rumo da questão, e replicou:
– Assombra-me, querido mensageiro! Poderia me dizer para que serve que vós tenhais "descido" até aqui?
Não tive palavras. Assistia-lhe a razão. Mesmo assim, cuidando de minha profunda ignorância, maravilhosamente compassivo, proporcionou-me algumas pistas:
– Ele é o Amor!… Ele te escreveu na eternidade!…
Foi sublinhando as expressões, e deixando que me dominassem lentamente. Acredito que não esqueci nenhuma…
– És dele!… Pertences a Ele, porque Ele te imaginou, e é!…
Sua impressionante segurança me penetrou até os ossos.
– Dá-me uma razão: por que teria que esquecer o que é seu?
Silêncio. Se era assim, o lógico é que essa fração divina me habitasse. Mas havia mais.
– O que ganhas ao recebê-la… - iniciou um divertido sorriso e terminou a frase - em sua mente?
– Nem idéia.
– De novo me vejo obrigado a me aproximar, só me aproximar, à realidade, não o esqueça…
Aguardei, impaciente, igual às "luzes" que se escondiam entre os brilhos azuis da Spica. Elas, como eu, não estavam ali por acaso…
– A descida do Pai no ser humano provoca o nascimento de outra criatura, sobre o qual falamos no Hermón: a alma imortal.
Recordava-o. Ele se referiu a nishmah ("alma", em aramaico) em uma das inesquecíveis conversações na montanha sagrada, ao longo da última semana no acampamento, em agosto do ano 25.
– A alma – comentei –, uma criatura interessante…
– Uma "filha" da "centelha", embora ela não saiba, de momento…
– O que quer dizer?
Teve que fazer um novo esforço, sei. As realidades que estava enumerando não pertencem ao mundo visível e, em consequência, não há conceitos que possam vestí-las.
Ajustou-se ao mundo dos símbolos, o mais adequado, embora distante…
– A alma, como um bebê, nasce ignorante, embora amorosamente abraçada pelo Amor. Necessitará tempo para dar seus primeiros passos, ser consciente de quem é, e para onde dirigir-se. Como te digo, ao aparecer, a alma não sabe que é imortal. Descobrirá, mas antes deve ocupar-se de crescer. Ela será o recipiente que acolherá a personalidade do novo ser humano. Ela é a materialização do novo homem, ou da nova mulher…
Algo sabia a respeito, mas quis ouvir o de seus lábios. Ele jamais mentia…
– Alma imortal…
O Mestre, consciente da transcendência do momento, deixou correr os segundos.
Começou a notar o frio da noite. Levantei-me, entrei na cova e me fiz com uma das mantas. Retornei em frente ao fogo, e cobri os poderosos ombros do Filho do Homem.
Depois, repeti o comentário…
– Alma imortal. Isso quer dizer que, uma vez imaginados, vivemos para sempre…
O Galileu aproximou as Palmas das mãos à fogueira e deixou que o calor o percorresse. Olhou-me com doçura e percebi o perfume do kimah, como uma onda…
– Sim, já falamos sobre isso… A imortalidade é um dos presentes do Pai. Não depende de nada. É um presente do Amor. Como te disse, o Amor age, sem mais. Não precisa condições. Não pede nada em troca. Não pergunta, nem tampouco espera resposta. O Amor sabe. O Amor te cobre, e te veste, porque sim…
Inspirei profundamente e me deixei embriagar por aquela essência. Ele jamais mentia…
E, sem palavras, abracei-o com o olhar, tal e como Ele tinha por costume. Aquele Homem me devolveu a esperança. Agora sim o tenho tudo…
– Imortal!
E concluiu:
_– Imortal, embora ela não saiba, ou não aceite. A alma está destinada a Ele. Terminará onde começou, embora ela não entenda. Ela foi dotada do necessário para elevar o homem acima do material e, muito especialmente, para buscar a Origem. Com ela nasce o pensamento. Ela é o naggar do navio interior (*Nota: naggar significa piloto). Ela é a responsável pela arquitetura da personalidade. Ela está preparada para buscar, embora não saiba o que. A "centelha" lhe concedeu o magnífico dom da inquietude, e não descansará até que descubra quem é realmente, e de onde procede. Ela está sujeita à razão, mas só até que decida pôr em funcionamento o que você chama "princípio Omega": fazer a vontade de quem a criou… Então, a alma será também intuitiva, e iniciará a magnífica aventura do sábio que, além disso, sabe quem é._
Vol.9 | Pag.36 | 30/01/0026
– Dá-me detalhes… Que é exatamente a centelha?
O Mestre me olhou sem saber por onde começar. Foi o que intuí. E decidi lhe dar uma mão.
– Recordas? Tu nos disseste no Hermon que a centelha chega quando a criança toma sua primeira decisão moral. Eu me neguei a te bater com a tábua. Foi uma decisão moral. E creio que falaste dos cinco ou seis anos. Essa é a idade na qual a centelha chega.
De repente, Ele me interrompeu.
– 2.134 dias, para ser exato.
– Como?
– A centelha, como tu a chamas, desce do Paraíso aos 2.134 dias do nascimento da criatura humana.
– Ah! Compreendo.
Para dizer a verdade, nunca soube se estava brincando.
– E como o Pai sabe que esse menino ou menina tomou sua primeira decisão moral?
Pareceu-me que Jesus prosseguiu com tom festivo. Ou não?
– É que O avisam.
– Claro. E uma vez instalada na mente da criança, o que acontece?
– Outro prodígio, e muito mais destacado que o desta manhã.
– O bondoso Deus, o Pai, tão distante para a criatura humana, abandona o Paraíso e se torna sócio do mais humilde e do mais primitivo de Sua criação material. Eu te disse: é o mistério dos mistérios. Nem os anjos sabem como se dá essa descida. Ele se fraciona e aparece na mente humana. Deus dentro de ti e como garantia de que serás eterno. A centelha é a promessa do Pai de que um dia serás imensamente feliz. Essa presença divina, tão real quanto este fogo que nos aquece, é que te empurrará constantemente a buscá-lo, a saber d'Ele, a querer ser como Ele. A centelha, uma vez em ti, acende a chama da necessidade.
– Que necessidade?
– A necessidade de saber quem és, por que estás na vida e o que te espera depois da morte. A necessidade e o anseio de encontrá- lo.
– Deus dentro de mim! Não posso imaginar.
Jesus deixou que a revelação - porque é o que era - se assentasse em minha mente. Depois prosseguiu:
– Sim, o Pai dentro de ti e não diluído.
– Deus, Abbã, e em estado puro.
– Isso, querido malak. O Pai, fracionado, mas não condicionado. O Pai sem misturas. Deus mesmo. Tal qual. Ele e só Ele. Hut nehat.
A expressão é equivalente a "Espírito que desce" e que acaba se unindo à criação. Assim reza o Levítico (9, 22): "Desceu."
Fiquei em silêncio; um respeitoso silêncio. Jesus de Nazaré nunca mentia. Se Ele afirmava que o Pai desce do distante Paraíso e se acomoda na mente do homem, assim é.
E me perguntei: por que essas coisas não são ensinadas pelas igrejas?
Mas o Mestre não permitiu que me distraísse. O que estava me revelando era extremamente importante, e Ele tinha que ter certeza de que este pobre explorador o saberia transmitir.
– Segundo grande prodígio, igualmente notável.
Deixou-me alguns segundos no ar, pendurado no suspense. Sorriu levemente e disse com uma segurança que ainda me assombra:
– Ao se instalar dentro de ti, a presença do Pai, da centelha, provoca o nascimento de uma criatura belíssima que, pouco a pouco, muito lentamente, vai despertando. Essa criatura é o cálice sagrado no qual se formará tua verdadeira personalidade, teu eu. Uma criatura imortal.
Eu sabia a que se referia. Jesus falava da nismah, a alma. Invadiu-me de novo, e, ao ler meus pensamentos, seu sorriso me envolveu.
– Mente mais centelha é igual a alma.
A simplificação não o desagradou. Era válida. Mas me recordou:
– Aproximação à verdade, não esqueças.
– Sim, Mestre. Suponho que a realidade seja muito mais fantástica.
Assentiu com a cabeça.
– Já falaste disso, mas dá-me mais detalhes. Como funciona a centelha? Qual é sua missão?
– Preparar-te para a verdadeira vida. Não te confundas: preparar-te para aquela que é e será tua verdadeira realidade.
– Tu te referes à vida depois da morte?
– Exato. A centelha não cuida dos problemas que surgem nesta existência. Ela os conhece e pode aconselhar-te sobre o particular, mas sua missão é outra: ajustar tua mente humana ao que realmente interessa, à vida que te aguarda, à vida eterna. Ou seja: ela te prepara, te dirige e tenta te mostrar teu destino final, a verdadeira vida que te espera. Ela é um piloto. Deus faz as coisas tão bem que muito antes de entrares na eternidade já está te preparando para isso.
– Vamos ver se eu entendi. Deus vem para dentro de mim e capacita minha jovem alma para que ascenda, seguindo justamente o mesmo caminho que tomou o Pai em sua descida do Paraíso. Correto?
– Corretíssimo, malak.
– Ele desce e eu subo.
– Corretíssimo. E vai chegar o momento (não esqueças que minhas palavras são uma aproximação à verdade) em que ambos, a centelha e tu, sereis uma só criatura. Vós vos fusionareis. Deus e a alma humana imortal. Uma coisa só. A divinização do mais baixo e do último.
– E isso, quando acontece? Nesta vida?
– Pouquíssimos conseguem nesta existência. É depois da morte quando se dá o ansiado encontro: Ele (Deus) e tu, por fim.
– Para sempre?
– "Sempre" só existe em tua mente. No reino de meu Pai não há tempo. Não fales, portanto, de "sempre".
– Ela ajusta meu pensamento. Gosto disso.
– E o molda e o dirige para o belo, para o sábio, para o misericordioso e para o serviço a teus semelhantes. Ela consegue o grande prodígio: acaba apagando o medo de tua mente, e tua alma começa a conhecer a paz, a verdadeira paz espiritual. É a centelha que te proporciona a tranquilidade e a segurança. Ela te mostra o caminho. Ela te faz a grande revelação: tu és filho de um Deus.
– Estás falando da voz da consciência?
– Não. Dificilmente chegarás a ouvir a voz da centelha. Ela se confunde na confusão de tua mente. Às vezes sim, podes descobri-la. É como um eco distante.
– Então, quase ninguém tem consciência da presença desse fragmento divino.
Na realidade, não foi uma pergunta, e sim uma reflexão pessoal. O Mestre, porém, a complementou:
– O Pai é tão bondoso, tão respeitoso, que caminha na ponta dos pés dentro de ti. Por isso quase ninguém sabe.
Os olhos do Galileu se umedeceram.
– Eis outra razão pela qual vim ao mundo: para gritar que não estais sozinhos nem abandonados. Ele reside em nós e garante a imortalidade e a felicidade futuras. Estou aqui, querido mensageiro, para despertar o mundo. Quando chegar a hora, volta e transmite o que estou te revelando.
– E o que o Pai ganha instalando-se dentro dos seres humanos? O Mestre esperava essa pergunta. E se esvaziou:
– Recorda que é o mistério dos mistérios.
– Sim, mas dize-me.
Jesus tornou a sorrir, feliz. Meu interesse pelo bom Deus, para que negar, fascinava-o.
– Está bem. Farei o que puder. Deus, Abbã, não está capacitado para o mal. Seu conhecimento das coisas é absoluto e preexistencial. Mas nada substitui a experiência direta. E isso é o que o Pai faz: desce até o mais baixo e vive, por si mesmo, cada aventura na matéria. Vive contigo (e não é uma metáfora) tuas solidões, teus erros, tuas alegrias, tuas lágrimas, tuas dúvidas, teus ódios, tuas humilhações, tuas riquezas e tuas pobrezas, tuas ansiedades, tuas doenças, tua ignorância, tua covardia ou tua coragem, tua generosidade ou teu serviço aos outros. Ele está aí, quase desde o princípio, e vive contigo, em silêncio. Ele te dá de presente a imortalidade, e tu, em troca, O ajudas a experimentar diretamente.
– Mas isso é um ato de humilhação!
– É, querido malak. Deus, o maior, humilha-se. Deus "cresce" em direção ao homem e este "cresce" em direção ao Número Um. Ambos se beneficiam, não te parece?
– Que me dizes dos animais? Também desfrutam da centelha divina?
Jesus foi categórico.
– Não. Os animais podem expressar emoções, mas não são capazes de transmitir ideias nem ideais. Eles não sentem necessidade de buscar Deus, nem se fazem perguntas a respeito. - A centelha é um presente do Pai, mas só para o ser humano. Os anjos, por exemplo, se pudessem sentir inveja, vos invejariam por algo assim.
– O que aconteceria se o homem deixasse de receber a centelha? O Mestre sorriu diante de minha insaciável curiosidade.
– Isso não está nos planos do Pai.
Mas imagina…
– A humanidade retrocederia. Da noite para o dia perderíamos a necessidade de experimentar a beleza, a generosidade e a bondade. Tudo isso foi dado ao mundo pela presença do Pai em cada um de nós. Essa é a função da nitzutz. Não compreendeste? A beleza está em ti, fisicamente, embora não tenhas consciência disso. E assim será, para "sempre".
– E como faço para lhe prestar maior atenção?
– Eu te disse, e me ouvirás repeti-lo uma infinidade de vezes: deixa que se faça a vontade do Pai, abandona-te em suas mãos, aninha-te na centelha. Ela fará o resto. Aceita que és um filho de Deus e que nada mudará essa realidade-presente. A centelha, então, trabalhará, e tu perceberás a mudança, pouco a pouco. O medo, como te dizia, desaparecerá. Já não te acovardarão as dificuldades, nem concederás tanta importância às angústias próprias da vida na matéria. A dor e o sofrimento chegarão, mas não te derrubarão. A velhice não te assustará. Nada poderá te atemorizar. Serás livre, enfim. Estarás no caminho do reino.
Assim terminou aquela inesquecível conversa sobre a presença do Pai dentro do ser humano: a centelha.
Vol.9 | Pag.60 | 10/02/0026
Alma
Foi em uma dessas noites da quarta semana em Beit Ids que Jesus retomou a conversa sobre a nismah, a alma do ser humano. Ele havia anotado a frase escrita em uma das madeiras de tola branca: "A pérola do sonho".
Não recordo bem como surgiu a conversa, mas isso é o de menos. Jesus falou em primeiro lugar da beleza dessa criatura que muitos confundem com a centelha. Uma não tem nada a ver com a outra - afirmou -, mas a alma não poderia ser sem a centelha. A nismah é filha da mente e da centelha divina e, portanto, duplamente bela. Sua natureza - explicou com dificuldade - não é material, mas também não é cem por cento espiritual.
– Não compreendo, Senhor.
– É lógico. É outra das maravilhas do Pai, às quais vais te acostumando quando passares para o outro lado, como diz teu irmão.
– Nem material nem espiritual.
Jesus assentiu com a cabeça e sorriu, divertido.
– Uma criatura duplamente bela.
– Isso mesmo. A nismah és tu, realmente. Ou melhor, serás. Agora, em vida, ela vai se enchendo, como uma taça.
– Enchendo-se de quê?
– De todas as tuas experiências. Isso a faz crescer. Essa é sua missão: crescer de dentro e para dentro.
– Pensei que a alma estava aqui, na Terra, para ser testada.
– Seria injusto testar um recém-nascido, não acha? Não, malak, a nismah nasce e vive para atingir a perfeição, mas não aqui. Nesta vida começa sua capacitação. É o princípio sem fim. Ela está destinada à eternidade, recordas? Ela, pouco a pouco, irá descobrindo quem é e qual é seu futuro. Ela intui que foi criada para algo muito grande: a fusão com Deus, com a centelha. Mas dá-lhe tempo. É conveniente que ela digira as experiências como uma criança, mastigando-as. Mais ainda: convém que não saiba demais.
Olhei para Ele, desconcertado. Ele acrescentou:
– Se ela soubesse tudo, de repente, fugiria. Não sejas impaciente. Tudo está ordenado, e para o bem. Ou melhor, para teu bem.
– Então, o que me aconselhas fazer?
– É bom que saibas que a nismah é uma criatura real, e que é de tua posse. É o presente do Pai quando te imagina e apareces. Vive, portanto, e de acordo com o bom-senso. Isso é tudo.
Hesitou alguns segundos e finalmente concluiu;
– Vive o bom e o mau. Vive! É disso que se trata. Esta experiência na carne é única. A nismah guarda tudo, mas alimenta-a especialmente com a imaginação. Sonha o quanto puderes. Os sonhos são sua fraqueza. Os sonhos a fazem crescer. Em cada sonho se esconde uma pérola, e tu deves encontrá-la.
E recordei o que defendiam os velhos alquimistas: somnia dea missa (“os sonhos são mensagens de Deus").
– A pérola do sonho é o símbolo da nismah. Imagina quanto puderes, e ela, a alma, encher-se-á de paz.
E concluiu com uma frase que me acompanhará para sempre:
– Vive mais o que sonhas.
Depois falou da intuição, essa outra forma de alimentar a alma. A intuição, esse "presente" do Espírito. Mas essa é outra história.
Vol.11 | Pag.117 | 05/02/0028
Hípias recuperou uma das observações do Mestre e perguntou novamente:
– Se a alma não se dissolve (após a morte), o que acontece com ela?
Jesus se levantou e começou a andar entre os que estavam ouvindo. O velho também se levantou. E eu vi mais pessoas chegarem; talvez os vizinhos de Rāmma. Senti que o Mestre estava procurando as palavras certas. O ancião estava certo quando disse que um dos grandes problemas do Rabi era a "abordagem da verdade". Acho que foi difícil - muito difícil - encontrar as palavras exatas. Como descrever o que é indescritível?
– A alma é um presente do Pai Azul ou da Razão de Deus, como Zenon gostava de chamá-lo, – explicou finalmente o galileu, – e, claro, de origem divina.
– Consequentemente, a alma é indestrutível.
Hípias ouviu, surpreso. E notei um brilho especial em seus olhos. As palavras do Rabi, admito, nos fizeram vibrar…
– Zenon chegou perto de descrever a alma, – observou Jesus, – mas ficou aquém…
Ele sorriu maliciosamente e continuou:
– A alma não é razão, inteligência ou calor, como sustentou seu fundador, e nem atinge o homem aos quatorze anos. Vem mais cedo, muito mais cedo…
Tomé, o vesgo, não o deixou terminar:
– Que forma tem?
Jesus levantou o cálice e deixou-nos olhar para ele. Ele brilhou com fúria.
Por fim, ele explicou:
– Não exatamente, mas imagine um cálice como este. Essa é a alma…
Ele ficou em silêncio e caminhou pela platéia perplexa. Na mão esquerda, ele carregava a taça; no outro, laranja. Os reflexos de luz tornaram-se mais intensos, como se o cálice soubesse o que estava acontecendo.
– Enquanto você está vivo, – continuou Jesus, ainda andando de um lado para o outro, – a alma, o cálice, está cheio de coisas boas e más…
Ele parou diante de Hípias e se qualificou:
– Mas a alma não é razão, nem inteligência, muito menos calor… A alma é uma criatura maravilhosa que não fala nem raciocina. Fica lotada, só isso.
João Zebedeu não conseguiu se conter e explodiu:
– Mestre, os kittim (romanos) têm almas?
Todos riram da suposta piada. Mas João estava falando sério. E o Mestre respondeu da mesma forma:
– Exatamente como você.
Alguns protestos e assobios foram levantados. O grego entrou na conversa:
– Eu não entendo… Se a alma não é razão, o que é?
– Eu te disse: uma criatura imortal e deslumbrante que agora, nesta vida, você não é capaz de entender.
E ele enfatizou:
– Nem você nem qualquer outra pessoa. A alma, na realidade, é você… escondido. A alma é a sua personalidade, que um dia, quando você passar para o "outro lado", se mostrará em toda a sua beleza. É o seu EU autêntico.
O Galileu olhou para mim, sorriu e disse:
– Com letras maiúsculas…
– E ele viverá, eu viverei para sempre?
Hípias estava animado. A segurança do Mestre era absoluta, sem sombra de dúvida.
– A palavra 'sempre', – respondeu Jesus, – não é a correta. No reino de meu Pai, ela não existe. Não há tempo lá. "Sempre" requer um começo - que do "outro lado" - e ele olhou para mim novamente - não é possível. Em verdade te digo, amigo Hípias, que o que te espera não pode ser descrito em palavras…
Os olhos do velho umedeceram. Ele se aproximou do Mestre e o abraçou. Jesus retribuiu o melhor que pôde, com as mãos ocupadas pelo cálice e pela laranja. Ambos acabaram rindo. Mas os ensinamentos de Jesus não foram bem compreendidos. Alguns perguntaram que diferença havia entre alma e pensamento. O Mestre percebeu a confusão que reinava, devolveu o cálice a André e pegou uma vara. Ele então desenhou seis figuras no chão, bem como seis palavras em koiné (grego internacional).
Todos nós espiamos, intrigados. As palavras eram: "MENTE", "CENTELHA" e "ALMA". O segundo foi repetido duas vezes; "Alma" foi escrito três vezes. O Mestre, então, apontou para o primeiro desenho (uma cabeça humana). Ao lado dele, ele havia escrito a palavra "mente". E ele falou assim:
– A mente faz parte do seu corpo. Com ela você pensa. Mas a mente não é a alma. Não é imortal. Ela foi criada para ajudá-lo a andar. Quando o homem morre, a mente desaparece, assim como a carne e os ossos.
Em seguida, ele indicou o segundo desenho: outra cabeça humana. Ao lado, ele escreveu “centelha” e "alma". E ele continuou:
– Aos cinco anos, aproximadamente, o Pai Azul envia a centelha para a mente do homem…
Ele usou a palavra aramaica nitzutz. Poderia ser traduzido como "centelha", embora não no sentido de um flash de luz. A tradução menos ruim seria vibração (produzida pela letra yod, a primeira letra do Santo Nome). De acordo com Iniciados judeus, o yod tem vida. Sua "oscilação" ou "vibração" o transforma em uma letra favorita do Divino. Na verdade, faz parte do Tetragrama: YHWH ("Yaveh" em hebraico).
– É o grande presente de Abbā, continuou ele, sorrindo. É o espírito de Deus, que desce sobre a carne, sobre o mais primitivo…
– E com esse fragmento do Pai Azul vem outro grande presente…
E ele indicou a terceira figura: um cálice.
– A alma… Da mão da "centelha" vem o cálice, a alma…
E o graveto procurou as três últimas imagens.
Vários dos discípulos de Yehohanan (*Nota: o personagem Yehohanan é João, o Batista) se levantaram, muito zangados. E eles chamaram isso de blasfêmia. Eles se viraram e foram embora. Foram momentos de tensão. Os íntimos pareciam pálidos e mudos. Eles não sabiam o que fazer ou o que dizer. Isso era novo para eles. Muito novo…
Hípias tentou suavizar o momento e aplaudiu a coragem de Jesus. Os aplausos foram acorrentados, mas muito tímidos. João Zebedeu não aplaudiu.
O Mestre pediu calma e acrescentou:
– Em verdade vos digo que sois a inveja dos anjos. Eles não têm direito a receber o nitzutz.
Vol.11 | Pag.389 | 01/12/0028
– Conte-nos sobre o fragmento divino… Como ele entra na mente humana?
Jesus, condescendente, olhou para o céu. Parecia coalhado. E ele respondeu:
– É o segredo dos segredos… Nem mesmo os anjos o conhecem. Somente o Filho Eterno e o Espírito Infinito sabem como o Pai Azul se divide e por quê. Mas o importante, caro Bartolomeu, não é como ou por quê; o interessante é que o Nitzutz está lá, na sua cabeça, desde os cinco anos de idade… E estará sempre com você - por toda a eternidade.
– E por que eu não ouço?
Tomé reclamou.
– Porque a centelha sussurra, respondeu o Rabi. Ele nunca grita. O Pai Azul nunca grita. É por isso que o silêncio é tão importante. Para que você possa ouvi-lo…
– E o que diz? André interveio. O que o nitzutz sussurra?
A resposta do Filho do Homem veio na forma de uma canção:
– Tu és imortal… Tu és meu filho… Procura-me… Estou no fim do caminho… Confia… Não desanimes… Procura-me…
O eco dessa melodia flutuou na memória por um longo tempo, mas nenhum evangelista o captou. Compaixão…
E o belo sermão continuou:
– … Aprenda a polir seus pensamentos… Certifique-se de que eles são brilhantes ou não… Aprenda a duvidar… Duvidar é típico de homens inteligentes… Só os mesquinhos e equivocados não duvidam… Por trás da dúvida sempre vem uma verdade parcial… A verdade absoluta espera por você no Paraíso… Pense bem e você encherá sua alma de ouro… Ouça a intuição primeiro; então a lógica virá…
Vol.11 | Pag.460 | 15/03/0028
Mente e Pensamentos
O Urso estava impaciente e perguntou apressadamente:
– Mestre, a mente procede do Espírito Infinito?
– É verdade, respondeu Jesus sem hesitar.
– E a mulher tem uma mente?
O incrédulo Tomé queria saber. Todos riram da suposta piada.
– E mais refinada que a sua, disse o Galileu.
Murmúrios de desaprovação surgiram. E Iscariotes interveio (uma coisa estranha):
– Os animais pensam?
– Não como você, mas eles pensam…
– Como é a mente do Pai Azul?
Perguntou o inquieto Bartolomeu.
Jesus balançou a cabeça, negativamente. Compreendido. Ele estava mais uma vez diante do impasse das palavras. Mas ele tentou:
– Adorável… Isso é o suficiente, por enquanto. Quando você for para o outro lado, – e ele olhou para mim, – você descobrirá os atributos maravilhosos e inimagináveis dessa mente prodigiosa. Agora não tenho palavras. A verdade desliza como água por entre meus dedos. Confia…
– Você diz, Senhor, - disse o Zelote, - que as idéias não são nossas, e que elas vêm do Espírito Infinito.
O Mestre assentiu silenciosamente. E o guerrilheiro continuou:
– E o que você diz sobre más ideias? Eles também vêm desse Deus?
– As más ideias, esclareceu o Rabi, eram boas… inicialmente. É a vontade humana que os perverte. É o homem que distorce o bom, o saudável e o belo.
Vol.8 | Pag.407 | 17/01/0026
Esclarecimentos de Jasão sobre a Centelha Divina
A "centelha" ou nitzutz - assim o entendi -, é uma criatura (?) que contagia, por natureza. E o que transmite o Ahabah ou Amor? Tudo, menos medo. Por isso, o medo só é viável naqueles que ainda não têm descoberto a "centelha". Para quem sabe que está aí, no interior, ou, simplesmente, a intui, a bondade é lógica, a ação é contínua, a serenidade é irremediável, a misericórdia é a paisagem, e a inteligência é o "princípio Omega". A "centelha" – insistiu – contagia tudo. É sua característica. Ela é assim. E não há antídoto. A imortalidade não tem retrocesso, nem funciona com condições. És ou não és.
A nitzutz, ou "vibração" do Pai Azul, é uma jogada de Mestre. Ele desce e controla. Ele vive porque você vive. Ele recebe e emite, do Pai, e para o Pai.
Hoje a chamaríamos "baliza divina". Ele conhece cada milímetro de seu percurso, porque assim te imaginou, e porque o faz contigo. Sabe do número total de suas piscadas, porque os conta. Ele realmente tem informação de primeira mão. Sabe como te chamas, mas nunca te chamará. É você quem deve descobri-lo. Será o achado dos achados. Então compreenderá todos os porquês. Ele só contabiliza tuas dúvidas, e cada uma é considerada um sucesso. Se Ele desejasse a certeza em seu coração, não teria permitido que te aproximasses do tempo e do espaço. Ele é o mistério, esmiuçado.
A "centelha" é o "piloto" da alma imortal. Ela governa no silêncio e na profundidade das emoções. Ela é a fonte dos sentimentos. Ela é a que sussurra a piedade, e a que inspira a confiança. Ela é a intuição, o olhar do Pai. Ela é a lente que te permite distinguir a beleza. Ela é o Espírito que te move para os territórios da generosidade. Ela é a voz que confundimos com a consciência. Desde quando a mente tem voz? Ela mantém o rumo de teu destino, embora não o compreenda, nem o aceite. Ela, finalmente, deixará-te o leme quando a descobrir (quando compreender).
A nitzutz é seu mar interior. Em todos os seres humanos é diferente. Em alguns, serena. Em outros, brava. Podes navegá-la, mergulhar e, principalmente, desfrutá-la. Se a deixares falar, será um sábio. Por isso, ao descobri-la, os homens emudecem. E o silêncio é a melhor das respostas. Ela é outro mundo (o verdadeiro), sem sair do teu. Ela é o "reino dos céus", do que tanto falou o Galileu, e que muito poucos compreenderam. Ela não é Jeová, nem remotamente…
A "centelha" não é definível, como não é o imaterial. O "sem fim" não pode ser amarrado com as cordas do entendimento humano, que sempre tem fim. Tudo que me revelou é tão aproximado da realidade como Omaha ao sol. Mas meu dever é transmiti-lo…
E disse também que a "centelha" -o grande presente do Pai- é o que fica quando lhe abandonaram, ou quando estima que o fim te alcançou. Com a "centelha", a solidão nunca é negra, nem raivosa. Ela sempre pestaneja em algum momento, e faz o milagre: a esperança está a seu lado, pendente, e converte a suposta negrura em penumbra. Somos tão limitados, e poderosos, ao mesmo tempo, que criamos a escuridão e, no cúmulo do absurdo, acreditamos nela. "Centelha" e escuridão são incompatíveis. "Para isso vim” - repetiu muitas vezes. Essa vez é a boa nova: o Pai está no interior, faça o que faça, e seja o que seja… "
A nitzutz não depende de sua vontade. Ela desce, sem mais. Isso é um Deus de luxo. Não há troca. As condições as põe o homem e, obviamente, equivoca-se. O Pai não requer, nem necessita, não exige, nem tampouco espera. A "centelha" é sua, e a Ele retornará quando concluir a grande aventura do tempo e do espaço. E insistiu:
– Confia!
É a "centelha" a que te faz forte, inexplicavelmente. É do azul do Ahabah que bebes, e de onde consegues a força de vontade, inclusive quando andas atrás de ti mesmo…
É Ela o tronco da qual floresce a intuição. Quanto antes a descobrires, mais e melhor desfrutarás da característica humana por excelência. Quanto mais próximo à "centelha", mais intuitivo. Quanto mais intuitivo, mais certeiro. Quanto mais certeiro, menos necessitado da razão. Quanto mais longe da razão, mais ao sul da mediocridade. Quanto menos medíocre, mais você…
A nitzutz, além disso, contagia a imaginação. Nenhuma outra criatura mortal está capacitada para sonhar acordada. É outra das distâncias siderais que nos separam do mundo animal. Eles, os brutos, jamais poderão criar, ou prosperar, porque não dispõem da "gota azul" no interior. Eles, os animais, carecem, portanto, da alma que elabora o "Eu". Eles não sabem quem são, nem saberão jamais. Eles não se fazem perguntas, nem procuram Deus. Não é sua atribuição. Sua única imortalidade está em nossa memória. Ao praticar a imaginação, a "centelha" entreabre a porta do futuro, e mostra como seremos: como Deuses (com maiúscula). Deuses criadores de universos que só nós imaginaremos. Em realidade, isso é o Pai: a imaginação acima do poder. Agora não sabemos, mas nunca somos tão iguais a Ele como quando soltamos a imaginação. É a "centelha" a que desnuda a beleza, e faz conceber a poesia. É Ela a que ordena os sons e os silêncios, e desenha a música. É a nitzutz a que golpeia a pedra e deixa escapar a arte. É Ela a criadora de unicórnios azuis. É Ela a que provoca os sonhos, e os arquiva. É Ela, de mãos dadas com a imaginação, que anuncia o "reino" do qual procedes - tua "pátria" -, e ao qual, necessariamente, voltarás. Um "reino" do espírito, onde imaginar é ser. A nitzutz é a pérola que encontrarás na ametista, se souber procurar. Ela é o gênio que não descansa, e que bombeia idéias. Não importa sexo, raça ou condição. É Ela a que nos faz espiritualmente iguais. A "centelha" é a chave. Nenhuma "gota azul" é melhor ou pior. O Pai, simplesmente, é. Todas as "centelhas" são Ele, e todas vêm Dele, mas Ele é muito mais…
Esta foi a "pedra angular" que sustentou o magnífico "edifício" erguido pelo Filho do Homem. Pretender a superioridade, tentar monopolizar a razão, ou acreditar-se em posse da verdade é não saber (ainda) que um Deus habita em nós. E o que é pior: é não saber que essa "centelha" é distribuída com o próprio Amor, e na mesma "quantidade".
É a misteriosa fração (?) do Pai Azul, que um dia toma posse de nós, que se ocupa de semear esperanças. Ele as limpa e as distribui. E a cada dia aparecem diante de nós. Outra questão é que as consigamos ver. Podem ser imensas, ou esperanças que cabem na palma da mão. Isso pouco importa. O fascinante é que, enquanto há "centelha", há esperança. E é justamente a esperança - a confiança em algo - o oxigênio da muito jovem alma que chegou com a "centelha". Mais esperança, mais oxigênio. Quanto mais oxigênio, mais felicidade. Mas o carregamento de esperança não depende de nós. Cada ser humano nasce com uma cota. Foi o que entendi.
Depois, após a morte, a esperança deixa de ser intermitente, e nos abraça. Já não será o duplo parágrafo do livro da vida. A esperança será o "DNA" da alma. Por isso não há palavras. Por isso insistiu, muitas vezes: "Confia." A esperança é a sombra da "centelha". A primeira não é possível sem a segunda. "Confia." Só os seres humanos desfrutam de um sentimento tão gratificante. Já viste um cão esperançoso? A felicidade dos animais é a sombra da esperança humana. "Ânimo, malak! Quando experimentas a esperança” -acrescentou, feliz-, “tens tudo… " A esperança é outra demonstração da existência do Pai no interior do homem. É uma piscada do Amor. Só você saberá compreendê-lo. Só o ser humano reúne as condições necessárias para acolher a esperança, e abraçá-la. Se te aproximares desta realidade, te terás aproximado da própria essência divina. "Confia, malak." A "centelha", agora, prepara ao homem para um estado de felicidade quase completa, tão incompreensível para a curta inteligência humana como a estrutura interna da imortalidade. "Confia…"
É Ela, definitivamente, a que nos faz humanos. É a nitzutz a que nos diferencia do resto da criação. Ela é o milagre, e o grande enigma, não resolvido nem pelos anjos.
Ninguém sabe por que, mas o Pai escolheu o menor, o mais primitivo, para acomodar-se no tempo e no espaço. Somos uns recém chegados com sorte. Por isso dizia que nos invejam. Por isso, em parte, os "K" deixam tudo, e descem à imperfeição…
É a "gota azul", que nos distingue, que puxa a alma para Deus. É lógico que Ela se incline para si mesma. Só sua presença justifica a transbordante inquietude do ser humano com relação ao transcendente. Nenhum animal se atormenta com as grandes perguntas: Quem sou?, Por que estou aqui?, O que será de mim? É a alma imortal que deve achar as respostas, sempre sussurradas pela "centelha". E esse dia chega, ao intuir, imaginar, ou descobrir que o homem é habitado pelo Número Um, que a vida adquire sentido. Então, "Ômega é o princípio". Então, ao compreender, a alma se esvazia por si mesma, e deixa que a "centelha" a preencha. Então, segundo o Mestre, ao ajoelhar-se e reconhecer o Bom Deus que nos habita, é inevitável que nos sentemos em seus joelhos e que deixemos o Amor fazer. É o que este explorador definiu como o "princípio Omega" (fazer a vontade do Pai). E nesse instante, Ahabah faz o prodígio: a imensa maquinaria do universo visível, e do invisível, coloca-se ao serviço do mais humilde. É o segredo dos segredos, ao alcance de todos, embora muito poucos cheguem a desvelá-lo. "Confia, malak. Existe uma ordem… "
E a voz da nitzutz ouve-se "5 x 5" (forte e clara): "Serás o que Eu sou." A partir desse prodigioso momento, quando o ser humano se entrega à vontade do Número Um, a voz da "centelha" deixa de ser um sussurro. E a esperança, finalmente, converte-se em hóspede permanente da alma. É uma antecipação da "grande aventura"…
Depois a comparou com um "amigo fiel", algo difícil de achar, quase único. Utilizou as palavras dod neemán, com um evidente, e ao mesmo tempo, oculto significado.
Segundo a Cabala, as letras de dita expressão somam 155; quer dizer, Deus, como Senhor, e como Amigo. Agora, à distância, ao analisar suas palavras com atenção, continuo perplexo. O número "155" é também "2", reduzindo a soma dos dígitos a um só número. "Dois" era justamente Ele: o Príncipe Yuy, o "amigo fiel", o melhor que tive, o "rosto" do Pai na Terra, o Dois que procede do Um, como a "centelha"…
E fez um breve prólogo, no que falou de novo da nitzutz. Se não entendi mal, o Mestre responsabilizou o fragmento divino que nos habita por todas e cada uma das revelações a que temos acesso ao longo da vida. Ela, a "centelha", as dosa. Dela procedem. E se vale dos meios mais insuspeitados. Não é a mente - criatura mortal e a serviço da alma - que proporciona essas informações decisivas, que variam o rumo de critérios e atuações. É Ele, o Pai, quem informa, e o faz oportunamente. Não são os homens, nem tampouco os livros, que iluminam. É Ele, embora, às vezes, possa servir-se deles. E acrescentou: "Essa revelação chega por dois caminhos. Através da comunicação direta com o Pai, com a "centelha", ou porque assim está estabelecido." Entendi que a primeira via é o que chamamos oração, embora o Galileu não gostava do sentido ortodoxo da palavra. Preferia comunicação, ou conversa, com a nitzutz. Desse diálogo, definitivamente, nascem as revelações. Por isso a importância de pedir informação, ou respostas; nunca benefícios materiais. Disso cuida o Ahabah, o "combustível" que tudo sustenta na criação, o Amor do Pai. E não há pergunta que fique sem resposta, como tampouco há sonho que não se materialize…, ambos, em seu momento. E insistiu: "Agora, nesta vida, ou depois… "
Quanto ao segundo caminho, preferiu não falar ainda. Ele sabia que não estava a meu alcance. Se não havia conseguido encaixar as peças que formam minha própria personalidade, como organizaria o "quebra-cabeças" divino? Sua palavra foi suficiente. A revelação -sublime ou doméstica- passa sempre pela "centelha". Ela a autoriza e a deposita na alma, como uma flor destinada a falar em silêncio. É a alma imortal que deverá analisá-la, desfrutá-la. Diferente das flores, as revelações não murcham jamais. E amanhã proporcionarão filhos…
A revelação, entretanto, acaba isolando a quem a recebe. O ancião Abba Saul, de Salem, tinha razão: a verdade não está feita para ser proclamada; não neste mundo. Quando a revelação chega, se for de grande calibre, abre uma enorme cratera no ânimo do receptor, e ele fica mudo. Se se atrever a falar, ninguém acreditará. Desde esse momento, o ser humano só crescerá para o interior. Então brilhará com luz própria, mas ninguém saberá. Jesus chamou isso de "abraço 3", o único que "abraça sem possuir". Apesar de tudo, apesar da solidão de quem recebe, a revelação é um passo da alma. O bebê está caminhando…