Sobre Perdão, Pecado e Castigo

As lições de Michael em relação ao pecado são muito claras: apesar de termos uma fração Divina dentro de nós, não estamos aptos a ofender Deus ou pecar contra Deus.

Nossa capacidade de pecar ou ofender aplica-se somente a outros indivíduos ou a nós mesmos.

O finito não consegue ofender o infinito.

Comparativamente, seria como o exemplo da mariposa. Um inseto que está voando instintivamente na direção da luz, que não tem consciência de si mesmo, não poderia ofender um homem. Um homem não se sentiria ofendido por um inseto. Da mesma forma nós, seres finitos, não somos capazes de ofender o Criador dos mundos, o infinito.

O pecado, portanto, é uma concepção que nasce em nossa própria consciência. Não existe pecado contra Deus e consequentemente, não existe castigo.

Além disso, como foi dito, Deus jamais condenaria um de seus filhos a um mal permanente. Nenhum pai condenaria um filho desta forma.

Não há julgamento, não há prestação de contas, não há castigos. O Pai Azul é um Deus de Amor e não há nada a temer. É mais uma mensagem de esperança de Michael.

Vol.1 | Pag.171 | 03/04/0030

– Dá-me, ao menos, um sinal para que saibamos quando te revelarás aos homens pela segunda vez…

– Quando vos desnudardes sem sentir vergonha; quando tomardes vossas vestimentas, as colocardes sob os pés como as crianças e as pisoteardes, então vereis o Filho do Vivente e não temereis.

Lázaro, afortunadamente, continuava identificando “meu mundo” como a Grécia. Isso me permitia continuar interrogando o Mestre com certa margem de amplitude.

– Então – retornei – meu mundo está ainda muito longe desse dia. Ali os homens são inimigos dos homens e até do próprio Deus…

Jesus não me deixou prosseguir.

– Estais então equivocado. Deus não tem inimigos.

Aquela frase incisiva do Nazareno trouxe-me à memória muitas das crenças sobre um Deus justiceiro que condena ao fogo do inferno o que morre em pecado. E foi o que lhe disse.

Cristo sorriu balançando a cabeça negativamente.

– Os homens são hábeis manipuladores da verdade. Um pai pode se sentir aflito com as loucuras do filho, mas nunca o condenaria a um mal permanente. O inferno, como creem em teu mundo, significaria que uma parte da Criação teria escapado das mãos do Pai… E posso assegurar que crer nisso é não conhecer o Pai.

– Por que então falaste em certa ocasião de fogo eterno e ranger de dentes?

– Se falando por parábolas não me compreendes, como então posso ensinar-te os mistérios do Reino? Em verdade, em verdade te digo que aquele que aposte forte e se equivoque sentirá como lhe rangem os dentes.

– É que a vida é uma aposta?

– Disseste tudo, Jasão. Uma aposta no Amor. É o único bem em jogo desde que se nasce.

Fiquei pensativo. Aquelas eram palavras novas para mim.

– Que te preocupa? – perguntou-me Jesus.

– Sendo assim, que podemos pensar dos que nunca amaram?

– Não existem tais pessoas.

– Que me dizes dos sanguinários, dos tiranos?…

– Eles também amam. À sua maneira. Quando passarem para o outro lado levarão um bom susto…

– Não entendo.

– Eles se darão conta, ao deixar este mundo, de que ninguém lhes perguntará por seus crimes, riquezas, poder ou beleza. Eles mesmos, e só eles, se convencerão de que a única medida válida, no “outro lado”, é a do Amor. Se não amaste aqui, em teu tempo, somente tu te sentirás responsável.

– E que ocorrerá com os que não tenham sabido amar?

– Queres dizer: com os que não tenham querido amar…

Novamente me senti confuso.

–…Esses, amigo – prosseguiu o rabi captando minha dúvida, – serão os grandes enganados e, em consequência, os últimos no Reino de meu Pai.

– Então teu Deus é um Deus de amor…

Jesus pareceu zangado.

–Tu és Deus!

– Eu, senhor?

– Em verdade te digo que todos os nascidos levam o selo da Divindade.

– Mas não respondeste à minha pergunta. Deus é um Deus de amor?

– Não o fosse e não seria Deus.

– Nesse caso, devemos excluir de sua mente qualquer castigo ou prêmio?

– É a nossa própria injustiça que se volta contra nós.

– Começo a intuir, Mestre, que tua missão é muito simples. Será que me engano se te digo que teu trabalho consiste em deixar uma mensagem?

O Nazareno sorriu satisfeito. Pôs sua mão sobre meu ombro e respondeu:

– Não poderias ter resumido melhor…

Vol.1 | Pag.196 | 04/04/0030

Meus irmãos, vós errais em vossas opiniões porque não compreendeis a natureza das íntimas e amorosas relações entre a criatura e o Criador, entre os homens e Deus. Não alcançais o conhecimento da simpatia compreensiva que os pais sábios têm por seus filhos imaturos e, às vezes, equivocados.

Duvido que um pai inteligente e amoroso necessite alguma vez de perdoar um filho normal. Relações de compreensão associadas com o amor impedem, efetivamente, desavenças que mais tarde requeiram reajuste e arrependimento por parte do filho e perdão por parte do pai.

Digo-vos que uma parte de cada pai vive no filho. E o pai desfruta de prioridade e superioridade de compreensão em todos os assuntos relacionados com o filho. O pai pode ver a imaturidade do filho por meio de sua própria maturidade: a experiência mais amadurecida do velho.

Pois bem, o Pai celestial tem infinita simpatia e compreensão amorosa para com os filhos pequenos. O perdão divino, portanto, é inevitável. Ele é inerente e inalienável à infinita compreensão de Deus e a seu perfeito conhecimento de tudo o que concerne aos juízos errôneos e às opções equivocadas do filho. A justiça divina é tão eternamente justa que inclui, inevitavelmente, o perdão compreensivo. “Quando um homem sábio entender os impulsos íntimos de seus semelhantes, ele os amará. E quando amardes vosso irmão, já o tereis perdoado. Essa capacidade de compreender a natureza do homem e perdoar seus aparentes equívocos é divina. Em verdade, em verdade vos digo que, se fordes pais sábios, essa deverá ser a forma de amardes e compreenderdes vossos filhos. E até os perdoareis quando um desacordo momentâneo vos houver separado.

O filho, sendo imaturo e carente de plena compreensão quanto à profunda relação pai-filho, terá frequentemente uma sensação de separação diante de seu pai. Mas o verdadeiro pai nunca admitirá essa separação.

O pecado é a experiência da consciência da criatura; não faz parte da consciência de Deus.

Vossa falta de capacidade e de vontade de perdoar vossos semelhantes é a medida da vossa imaturidade e a razão dos fracassos na hora de alcançar o amor.

Vós mantendes rancores e alimentais vinganças na proporção direta de vossa ignorância sobre a natureza interna e os verdadeiros desejos de vossos filhos e do próximo. O amor é resultado da divina e íntima necessidade da vida. Funda-se na compreensão, nutre-se do serviço generoso e aperfeiçoa-se na sabedoria.

Vol.3 | Pag.307 | 21/04/0030

– A tendência ao vício pode ser hereditária. O pecado, ao contrário, não se transmite de pais a filhos. O pecado é um ato consciente e deliberado de rebeldia contra a vontade de nosso Pai Universal e contra as leis do Filho. Toda idéia de resgate ou expiação, portanto, é incompatível com o conceito de Deus. O amor infinito do nosso Pai ocupa o primeiro posto dentro da natureza divina. Em verdade te digo, Jasão, que o senso de salvação pelo sacrifício está arraigado no egoísmo. Eu tenho pregado que a vida de serviço é o conceito mais elevado de fraternidade entre os que crêem. E te direi mais: a salvação é crer na paternidade de Deus. A maior preocupação dos fiéis do reino não deveria ser seu desejo egoísta de salvação pessoal. Só a necessidade de amar a seus semelhantes acima de si mesmos. Os autênticos crentes não se preocupam com o possível e futuro castigo de seus erros. Interessam-se tão-somente pelo restabelecimento do contato com Deus. Decerto um pai pode castigar seus filhos, mas o faz por amor e com um objetivo e um sentido puramente disciplinares.

– Logo, há um castigo futuro…

– Não como tu o imaginas. Nosso Pai é amor. E o amor é contagiante e eternamente criador. Crês que não existem outros meios melhores do que o castigo para corrigir os erros das limitadas criaturas mortais? Antes de eu vir a este mundo (e até mesmo se eu não tivesse vindo), todos os mortais do reino dispunham já da salvação. Nosso Pai, repito, não é um monarca ressentido, severo e implacável, cujo principal prazer consiste em localizar e perseguir criaturas que agem na obscuridade ou no pecado. A própria idéia de um resgate ou expiação colocaria a salvação em um plano de irrealidade. Este conceito é puramente filosófico. A salvação humana é inegável e se baseia em dois únicos princípios: Deus é nosso Pai e, conseqüentemente, todos os homens são irmãos.

Vol. 6 | Pag.401 | 21/08/0025

– Então - intervim timidamente, – essa história de ganhar ou merecer o céu…

O Mestre recuperou seu sorriso habitual, mas, por ora, não disse nada. E me olhou sem pestanejar. E a força daquele olhar me sufocou.

Em seguida, solene, pronunciou uma única palavra:

– Mattenah.

Um "presente"! É isso que significa mattenah.

E eu, fingindo que não havia entendido, repeti: - Um presente! A imortalidade é um presente?

– Sim, Jasão. E lembra bem o termo que utilizei. Lembra e escreve. O homem deve saber que é imortal por desejo expresso do meu Pai. Faça o que ele fizer, diga o que disser…

Acho que de novo adivinhou meus pensamentos.

– Não te preocupes com isso. Essa é outra história. Para aqueles que fazem o mal ou, simplesmente, erram, existem outros procedimentos… Em verdade vos digo que ninguém escapa do amor de Abbã. Cedo ou tarde, até os mais iníquos são "tocados"…

Vol.6 | Pag.403 | 21/08/2025

– Mas Yaveh não é Abbã. Yaveh castiga, persegue…

– Repito. Deixai que se cumpram os planos do Pai. Tens razão, meu querido "ajudante". Yaveh não é Abbã, mas cumpriu com o disposto: o homem respeita a Lei. Agora é a vez da revelação. Acima da Lei está sempre a verdade. E a verdade é uma só: sois filhos de um Deus-amor.

Comecei a intuir e a compreender. Mudar o rosto de Yaveh. Modificar seus pensamentos e normas. Suavizar o severo juiz. Quase humanizá-lo. Injetar a esperança num povo resignado e adormecido. Levantá-lo até as estrelas. Dizer-lhe que é imortal pela generosidade de um Deus. Gritar-lhe que essa "centelha" não é uma utopia. Fazer-lhe ver que o mundo é uma família…

Vol. 7 | Pag.60 | 17/09/0025

– Acreditas que o Pai condena seus filhos à doença?

– O que importa, Senhor, não é que eu acredite, e sim que eles - e apontei para a escuridão das choças - entendam. Tu tens ensinado que este Pai é amor…

Guardou silêncio durante alguns instantes. Tive a sensação de que media as palavras.

– Aquilo que tu observas, que escutas e, sobretudo aquilo no que acabas acreditando, é muito importante. Tu és um enviado. Depois quando voltares, sê fiel. Outros descobrirão a verdade por intermédio de ti. Tu és importante ou não?

Ele sorriu acolhedor. Jesus voltava a ser aquele do Hermon. Risonho, afável, comunicativo.

– Responde a minha pergunta: consideras que o Pai deseja o mal e a doença?

– Se eu tivesse um filho - respondi, um pouco angustiado -, nunca o castigaria com uma doença. Provavelmente - retifiquei -, não o castigaria…

E ficou flutuando na minha mente uma frase que eu não soube interpretar naqueles instantes: "quando voltares…". Por que falava no singular? Mas, perdido na conversa, aquele "lampejo" importantíssimo se apagou e não voltei a lembrar dele…, até um tempo depois.

– Em verdade te digo, Jasão, que estás próximo do âmago da questão. O problema é que não conheces o Pai ainda e, portanto, não sabes que as palavras "castigo" e "pecado" não são concebíveis para Ele. Sois vós que levantastes essas calúnias contra Deus.

Ele percebeu a minha confusão e me animando com um sorriso interminável, cuidou de caminhar passo a passo.

– Comecemos pelo final. O que é pecado para ti?

– Se eu fosse religioso - expliquei -, entenderia isso como uma transgressão das leis e dos preceitos divinos.

– E quais são essas leis e normas?

Ele me surpreendeu. Sabia melhor do que eu. Ele conhecia a Tora e os 613 mandamentos revelados por Moisés (365 proibições, segundo o número de dias do ano solar, e 248 ordens positivas que - diziam - correspondiam às partes do corpo humano). Não me deixou responder.

– Acreditas que o Pai ditou essas leis?

Sempre achei que foi Yaveh… O olhar cortante me repreendeu.

– Não estou falando de Yaveh, e sim do Pai, o Número Um, como diz teu irmão…

Ele me encurralou.

Sabes qual é a única lei para o Pai?

– O amor. Isso sabemos por ti…

– E o profeta Amós resumiu isso num só mandamento: "Procurai-me e vivereis". Isto é o que o Pai pede: procurá-lo. Essa é a única lei. Pois bem, dizei: que castigo pode advir do descumprimento dessa lei? Acreditas que se o homem não busca Deus é um pecador?

Ele me deixou perplexo outra vez.

– Mas, querido amigo, embora seja importante, essa não é a questão principal. O problema, como dizia, é que a inteligência humana não está preparada para entender a natureza do Número Um. É lógico. Lembras da borboleta na ponta daquele galho?

Assenti em silêncio. O Mestre se referia à Euprepia Oertzen, o belo lepidóptero (mariposa) que pousara no galho que Jesus segurava numa das inesquecíveis noites ao redor da fogueira, no Hermon. Lembrava muito bem de suas palavras: "Dize-me, querido anjo, acreditas que esta criatura está em condições de compreender que um deus, seu deus, a está segurando?"

– Não (disseste), a distância é grande demais… E o Mestre continuou abrindo caminho.

– Correto. Há uma distância tão imensa que nenhuma mente humana pode suspeitar como é o Pai. O finito (tu sabes muito bem) não abarca o infinito. Enquanto viverdes submergidos no tempo e no espaço, não podereis intuir sequer o que existe mais além, nas regiões do espírito.

Jesus aliviou a tensão. Apontou para o firmamento negro e cintilante e perguntou:

– A mente de Aru poderia captar a ordem que rege as estrelas? E, se não é assim, como aceitar que possa ofendê-las? Por que sois tão vaidosos e convencidos? Se nem compreendeis Deus, como vos atreveis a colocá-lo no vosso nível? Como é possível que o julgueis capacitado para ser ofendido e para castigar?

Não pisquei. O Mestre foi categórico.

– Pecar? Achas de verdade que uma criatura finita pode molestar, injuriar ou provocar Deus? Acreditas que Deus é humano?

– Tu, sem dúvida, tens falado (e falarás) do pecado e dos pecadores…

– Eu vos disse uma vez: quando chegar a minha hora, falarei como educador. Tu, melhor que ninguém, deverias entender o que digo. Haverá momentos em que minhas palavras deverão ser tomadas como uma aproximação da realidade. Estes - acrescentou, referindo-se aos habitantes do kan - são a consequência de uma época. Só conhecem uma linguagem… Vós, por outro lado, estais mais próximos…

Vol. 7 | Pag.64 | 17/09/0025

– Se o pecado não existe, ao menos como ofensa ao Pai, o que acontece com os assassinos, ladrões etc.? Não são pecadores?

O Filho do Homem esperava a pergunta. Esboçou um meio sorriso e negou com a cabeça.

– Uma coisa é tentar ofender o Pai (impossível, como tenho dito) e outra muito diferente é causar o mal a teus irmãos, os seres humanos. Quando alguém descumpre as leis, está infringindo as normas regidas entre os homens. Não confundas este pecado com o outro…

– Mas, no final das contas, Deus castiga estes pecadores, digamos, "de segunda categoria"…

– Novo erro, querido Jasão. O Pai é amor. Já falamos isso. Se o pecado não faz parte da consciência de Deus, e assim é, por que pensar que é um juiz que castiga?

– Nem pecado nem castigo são conceitos compreensíveis para o amor. E Ele, teu Pai, é o Número Um, é o Amor…

Eu sei, com maiúsculas.

– Acreditas então que ele deseja e envia a doença?

Silêncio.

– Podes admitir que uma pessoa enamorada nem consiga imaginar como ofender e castigar seu amado ou amada?

Jesus permitiu que as idéias planassem sobre o meu coração. Depois, pausadamente, foi descendo…

– O Pai (não Yaveh) não faz contas. Eu já te disse: confia. Agora estais cegos, mas algum dia se fará a luz em vossas inteligências. Tudo obedece a uma ordem, inclusive a maldade.

A palavra "ordem" se propagou solene em meu interior. Aquilo era novo para mim. Demasiado novo…

– Tu sabes muito bem, Jasão. A doença não é um castigo divino. Sua origem é outra. A doença só existe nos mundos materiais. Faz parte do processo natural. Mas como explicar isto a estes pequeninos? Será que vós poderíeis fazer isso?

– Precisam de tempo - murmurei com tristeza.

– E vós também… Confia, querido amigo. Só se pede isso de vós: confiança. No amor não há restos.

Vol.9 | Pag.907 | 09/04/0027

E, de repente, Tiago Zebedeu dirigiu a palavra ao Filho do Homem, e o fez com coragem:

– Rabi, fomos ensinados que não estás aqui para mudar a Lei, tampouco os ensinamentos dos profetas, mas, ao se negar a comer o cordeiro pascal, não estarias violando essa Lei?

Jesus contemplou o Zebedeu com ternura. O silêncio regressou, curioso.

– Disseste bem - respondeu o Mestre, – eu não vim para modificar o espírito da Lei…

Fez uma breve pausa e perguntou:

– Alguém sabe qual é o espírito da Lei?

Todos se entreolharam, mas tinham muito vinho na cabeça. Ninguém respondeu:

– Pois eu direi: ama a teu próximo como a ti mesmo…

Eles sabiam disso. Jesus continuou:

– E ainda mais: ama a ti mesmo primeiro, para poder depois amar o teu próximo…

Mateus e o "urso" assentiram com a cabeça. O restante estava de boca aberta.

– Esse é o espírito da Lei - proclamou Jesus. - Isso não será mudado. O resto foi agregado…

A conversa se animou:

– Mas a que te referes como coisa que foi agregada? - retrucou o Zelote.

– O tempo dos sacrifícios, dos holocaustos, e de toda essa liturgia sangrenta já passou.

Ele até poderia ter dito isso mais alto, mas jamais de forma tão clara.

E acrescentou:

– A boa-nova que anuncio não precisa de templos, de animais degolados, de liturgias, de incenso, ou de bater no peito, ou de carne queimada, não precisa sequer de sacerdotes… Tudo está dentro.

Alguns olharam para ele espantados. Aquilo parecia uma blasfêmia.

Bartolomeu interveio acertadamente:

– Mas, Mestre, a ideia do sacrifício nas Sagradas Escrituras equivale à substituição…

O "urso" falava com acerto, como disse. Para a ortodoxia judaica, a essência do sacrifício era o sangue, como está registrado em Levítico (17, 11).

O sangue era entregue em troca da vida do sacrificador. Foi Yaveh quem introduziu a ideia da substituição.

– Eu sei o que o salmista diz - replicou o Galileu, que conhecia bem os textos sagrados. – Bem-aventurado aquele cuja transgressão é perdoada e seu pecado coberto…

Jesus invocava o Salmo 32. E continuou:

– Bem-aventurado o homem a quem Yaveh não atribui a iniquidade…

Eles assentiram, satisfeitos. Mas o Filho do Homem ainda não havia terminado. Faltava o melhor, na minha humilde opinião:

– Pois em verdade vos digo: tudo isso pertence à história distante…

Eles se entreolharam. O que isso quer dizer? Jesus esclareceu:

– Ninguém pode pecar contra o Divino…

(Algo me diz que devo escrever com letra maiúscula.)

O cheiro de blasfêmia continuava no ambiente. Mas o Mestre não retrocedia um milímetro:

– Em verdade vos digo: é possível pecar contra o homem e, o que é pior, contra vós mesmos, mas nunca contra o Pai.

Já havíamos conversado sobre isso. Quem isto escreve compreendeu.

– Eu, agora, ofereço-vos um jugo mais leve. Fazer a vontade de Abbã é a verdadeira Pessach… Não percebestes que a palavra "sacrificar" (hiqriv) também pode ser usada para dizer "ficar mais perto" (qerev)? Aproximai-vos e estendei a mão ao próximo, e a unidade com Abbã se dará por acréscimo.

Ele estava certo. A palavra hiqriv em hebraico tem como sua primeira acepção "sacrificar" e, como terceira acepção, "ficar mais perto, aproximar-se". Qerev, por sua vez, tem como primeiro significado "aproximar-se" e "sacrificar, imolar" é sua terceira acepção. Curiosamente, ahavá ("amor") tem o valor numerológico de "13" (na Cabala). Exatamente o mesmo que "unidade" (ejad).

– O verdadeiro corbân ("sacrifício") é a aproximação ao Pai… E ele já está em vós! Entendeis agora por que a verdadeira Pessach (Páscoa) é Abbã? Aproximai-vos Dele e tereis imolado o melhor dos sacrifícios… Lembro-vos do salmo do rei Davi: "… Meu bem maior é estar ligado ao Senhor.”

Vol.9 | Pag.947 | 29/04/0027

– Então, segundo o que tu dizes, não devo temer a Duma… Duma é uma criatura (parecida com um anjo), cuja função era tomar a alma do ser humano e jogá-la no inferno.

– Não deves temer…, a ninguém.

– Mas eu tenho sido pecador - retificou. - Sou pecador… Que será de mim após a minha morte?

– Viverás!

Flávio abriu a boca, perplexo.

O Filho do Homem recuperou o sorriso e prosseguiu, devotando-se às incertezas:

– Ninguém te julgarás pelo que tu tenhas escolhido.

O Santo, bendito seja, não me julgará? Jesus riu, divertidamente.

– Nem o verás…

Como é isso?

Havíamos falado no Hermon…

A estrada que leva ao Paraíso, ao encontro com Abbã, é uma longa viagem…

E esclareceu:

– Cheia de surpresas… Todas boas.

Alguns dos notáveis rejeitaram as afirmações do Homem-Deus. Jesus captou e insistiu:

– Após a morte, ninguém julga ninguém… Ao despertar, vereis que tudo está correto.

– E o que tu dizes sobre os ímpios? - perguntou um dos notáveis.

– Ali não existe essa diferença.

– Não há maus?

– Não.

Aquele "não" foi instantâneo. Caiu como uma tonelada de mármore sobre o ânimo dos que estavam presentes. Jesus, em determinados momentos, era implacável.

Aceitei a sua palavra, naturalmente.

Devo reconhecer: injetando esperança, Ele era único.

– Despertar? A que tu te referes?

– A morte é só um sonho… A isso eu me refiro.

Vol.9 | Pag.723 |09/09/0026

– Mestre, quantas vezes eu devo perdoar a esse tonto?

E apontou o Zelote.

– Talvez sete vezes, para chegar limpo ao shabbat (sábado)?

O Mestre se inclinou ligeiramente sobre a areia vermelha e preta da praia e começou a alisá-la. Depois passou a desenhar com o dedo indicador esquerdo (Jesus, como eu acredito ter mencionado anteriormente, era canhoto).

Eu não digo sete vezes, Pedro…

Eu o vi desenhar o número 7. E continuou:

Sabias que o caminho para o reino de meu Pai começa justamente no perdão?

Silêncio.

Depois, desenhou a letra yod (equivalente ao número 10) e prosseguiu falando:

Ayin representa a humildade…

A letra hebraica ayin é o resultado da multiplicação de 7 por 10. Essa foi a minha interpretação. Ayin, portanto, equivalia a 70.

Pois bem, Pedro, bebe na humildade, no 70, para seres capaz de perdoar.

Compreendi a metade.

Jesus jogava com os conceitos cabalísticos. O 7 era a letra zain (que simboliza a fertilidade). A yod (o 10) era (e é) a Unidade Primordial, Abbã, o maravilhoso e benéfico Pai Azul. O resultado da multiplicação de 7 x 10 é 70 (a letra ayin representa a humildade).

Como dizia o Mestre, quem tem ouvidos que ouça… Jesus continuou falando na mesma linha:

O perdão vai te abrir todas as portas. A humildade é um rio de vida. Atira-te nele…

As estrelas piscaram, perplexas. E o Mestre insistiu:

Não digo sete vezes, Pedro, mas setenta vezes sete… O perdão deve ser exercido do mesmo modo que o ato de comer e dormir… Perdoa setenta vezes sete e vais rejuvenescer.

O Zelote interveio. Não suportava mais de tanta curiosidade.

– O que é mais importante, Senhor, perdoar ou saber esquecer? O Galileu o observou com complacência. E agradeceu com o olhar que o Zelote soubera perdoar as inconveniências de Pedro.

Se fores humilde, Simão, irás perdoar. Se fores compassivo, irás perdoar setenta vezes sete…

Sorriu levemente e completou:

E se fores humilde e compassivo, quer dizer que és inteligente. Por consequência, esquecerás setenta vezes sete…

– Mas a resposta não foi respondida - insistiu o guerrilheiro. - Devo escolher? Perdoar ou esquecer?

Mas eu respondi, Simão, eu respondi… Mas o farei de novo. Perdoa sempre. Depois, se desejares, mantém a lembrança da ofensa, mas que o rancor não te devores. E isso não vai acontecer se tiveres perdoado de verdade.

Olhou os discípulos com infinita piedade e proclamou:

A memória está livre de pecados. Guardai as boas e as más, sem manchar-vos. Porque essa será a única coisa que ireis trazer após a morte… Não duvides, Simão. Perdoa e serás assim testemunha de mais um milagre do Espírito: teu inimigo, ou aquele que te ofendeu, vai se afastar de ti misteriosamente. E o mais importante: tu beberás paz até ficares saciado…

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