Sobre as Pessoas com Deficiência
Sobre as Pessoas com Deficiência
A crença do povo judeu na época de Jesus era de que qualquer tipo de doença significava um castigo de Yaveh.
Pessoas com deficiências físicas ou doenças de pele (a lepra era muito comum), eram discriminadas e praticamente condenadas a viverem em locais isolados do restante da sociedade.
Para as crianças que nasciam com deficiências mentais, os pais eram considerados os culpados pelos supostos pecados cometidos contra Yaveh.
Michael, relembrando o conceito do “tikkun”, que seria o “contrato de vida”, nossa missão, trajetória e papel nesse mundo, nos ensina nos diálogos que os deficientes (sobretudo aqueles com deficiências mentais) são verdadeiros heróis.
Eles escolhem a dramática missão de viverem “encarcerados” em uma doença desta natureza, fazendo com que aqueles que o cercam exerçam o sentimento mais puro de amor, doação e generosidade. É um ser que veio para extrair o melhor dos seus pais ou dos que dele se dedicarem a cuidar.
Uma observação pessoal, algo que percebo há muito tempo, é que realmente os pais e cuidadores de pessoas com algum tipo de deficiência (principalmente cognitiva) possuem uma energia incrível, um olhar diferente, uma coragem indescritível. São pessoas que visivelmente evoluíram espiritualmente, em função da dedicação que se propuseram a realizar pelos seus filhos ou pacientes.
Mais uma vez, o ensinamento de Jesus me parece certeiro ao se referir a estes seres especiais, que ele chamou de heróis.
Vol.9 | Pag.766 | 09/11/0026
Contexto: O filho de Mateus Levi, Telag, tinha Síndrome de Down e naquela época era considerado castigo dos pais.
– Teu filho não é um endemoniado…
O publicano seguia sem prestar atenção ao Filho do Homem.
– Sei que tudo se deve aos meus muitos pecados…
– Mateus, – disse o Galileu, levantando o tom de voz, – Telag não é a consequência de tuas culpas...
O publicano olhou para Jesus e tentou compreender.
– Ninguém pode ofender o Pai, ainda que o pretenda…
Também havíamos falado sobre isso.
Contudo, Mateus, André e o casal etrusco não entenderam. Não importava. Jesus continuou:
– Telag faz parte dos desígnios de Abbã.
Então por que nasceu assim? - murmurou o publicano. O Mestre repetiu e com ênfase:
– Telag não é um possuído pelo demônio nem é consequência de teus muitos pecados…
Ele deixou correr uma pausa e disse, assertivamente:
– Teus muitos pecados?
Ele sorriu e acrescentou:
– Com os dedos de uma mão se poderia contá-los…
Mateus Levi não deu atenção à interessante conclusão do Mestre sobre seus pecados e voltou ao que lhe atormentava:
– O que é Telag, então?
O Filho do Homem respondeu com uma segurança que me surpreendeu:
– Um guibôr!
Jesus usou o hebraico, não o aramaico. Guibôr significa "herói". Nós nos olhamos, perplexos.
Suponho que o publicano tenha pensado: "o rabi está zombando de mim…" Mas não. Esse não era o estilo do Filho do Homem. E o Mestre leu a mente do seu entristecido discípulo:
– Não estou zombando, Mateus…
– Eu sei, rabi, mas eu não entendo… Telag é um herói?
E Jesus decidiu continuar a explicar o que havia me adiantado nos pântanos de Kanaf: você escolhe antes de nascer…
Creio que os homens não acreditaram. Suvas, em contrapartida, assentiu surpreendida.
Mateus resumiu o sentimento dos homens:
– Como pode ser que alguém escolha uma coisa dessas?
– No reino do espírito – declarou Jesus – existem leis e razões que a matéria ignora… Eles escolhem encarcerarem-se em si mesmos e viver uma experiência dramática…
Reservou um tempo num respeitoso silêncio e acrescentou:
– A mais dramática… Entendes por que os chamo de heróis?
Silêncio.
E eu tentei olhar a mente daqueles portadores da síndrome de Down, com paralisia cerebral, autismo, gente que eu tenho encontrado, que conheci e que conheço. Heróis? Criaturas "encarceradas" entre as grades de si mesmas? Se fosse verdade - e o Mestre jamais mentiu, essas experiências dramáticas fariam sentido, eu suponho…
O Filho do Homem leu igualmente em meu coração e se apressou em declarar:
– Esses heróis, além disso, multiplicam o amor, ali onde estejam e por onde passam. Ninguém ama tanto como aquele que ama uma dessas criaturas…
Retificou:
– Ninguém ama tanto como aquele que ama uma dessas maravilhosas criaturas…
Mateus, atônito, deixou de soluçar. O azul de seus olhos se fez mais "profundo ou intenso", como diria Suvas.
– Mateus, ninguém exerce a generosidade e o amor puro como fazem os pais ao cuidarem desses seres… únicos. Sim, filhos meus… Telag e os iguais a ele são, na realidade, heróis… É preciso muita coragem para dar continuidade a um trabalho dessa natureza… Eles também constroem o mundo, e com amor puro. Mateus, não olhes apenas as vestimentas de Telag…
Jesus usou a palavra begadim (vestimentas), mas não consegui captar o sentido exato do termo. Pensei que poderia fazer alusão ao corpo, como "vestimenta" da alma e da "centelha".
– Aprende a olhar o interior das pessoas. A leitura não é a mesma…
Observou intensamente Mateus e perguntou:
– Tu acreditas agora que Telag é uma bellinte?
Suvas tinha os olhos umedecidos. Ninguém se atreveu a responder.
A anciã se levantou e, em silêncio, caminhou até uma das "estufas".
Jesus prosseguiu com a voz trincada pela emoção:
– Ajoelhemos a alma quando estivermos na presença de um guibôr… São a admiração dos céus.