Sobre a Morte e Reencarnação
Sobre a Morte e Reencarnação
Como já foi dito, a lição de Michael sobre este tema que todos tememos, é uma mensagem de esperança.
“Morrer é dormir”.
“Deus nos treina para morrer durante toda a vida.”
“Vossa alma livre, ficará tão deslumbrada que nada do que agora considerais vos fará sombra. Eu vos repito: tereis entrado numa aventura fascinante.”
Segundo Michael, a passagem pela vida nesta forma material é única, bem como a morte física. Só se morre uma vez.
Após a morte física e um período de sono, acordaremos em uma forma diferente (ainda física, porém mais sutil), onde reencontraremos temporariamente entes queridos e continuaremos nossa jornada de evolução.
E as passagens para outras etapas evolutivas não precisam mais de uma morte como ocorre na etapa “carnal” de nossa existência.
A morte nos deixa apreensivos e é algo que devemos pensar, até porque é certo que, um dia, ela ocorrerá. Mas Jesus ensina que não precisamos temer, pelo contrário: as surpresas serão gratas e incríveis. Segundo Ele, nossas memórias serão preservadas, voltaremos para a verdadeira realidade e a etapa vivida na carne se tornará com o tempo uma lembrança difusa.
Michael nos estimula a não temer este momento, bem como a aceitar melhor as perdas que temos ao longo da vida.
Vol.3 | Pag.300 | 21/04/0030
– …em meu reino há muitas moradas… E uma delas é passagem obrigatória para os mortais que procedem dos mundos evolucionários do tempo e do espaço.
– Todos, como eu o fiz, despertareis para uma vida que é só o princípio de uma longa caminhada para o Paraíso. Uma continuada ascensão para o Pai Universal. Uma “viagem”… sem retorno.
Vol.3 | Pag.302 | 21/04/0030
– Não queiras agarrar o que ainda é invisível a teus olhos de mortal. Bastar-te-á a fé na existência do Pai. Muitas de minhas criaturas, apesar de haverem transposto a barreira da morte, também não estão preparadas para enfrentar, face a face, a luz cegante do Pai Universal.
– Vós fazeis empenho em apagar a “luz” que bate em cada coração e que foi depositada aí precisamente para vencer o medo. Se os homens escutassem sua própria voz, ninguém temeria essa passagem. Por que crês que voltei?
– … É preciso que uns poucos me vejam agora para que outros muitos creiam e aprendam a olhar para si mesmos. A morte, meu filho, é só uma porta. Não temais cruzá-la.
– Alguns seres humanos – esbocei com dificuldade – temem mais a incógnita do “depois” da morte do que o fato físico da morte…
– Esses – apressou-se a intervir – no escandaloso troar de suas dúvidas, silenciam a íntima e sábia “voz” de sua consciência. Deixai que seja ela quem vos guie. Tudo, na criação de meu Pai, está meticulosa e misericordiosamente disposto para o vosso bem. Ninguém morre. Tudo é contínuo progresso para o Paraíso. E nem sequer esse é o fim…
Vol.6 | Pag.393 | 21/08/0025
– É lógico que te perguntes isso. Minhas pequenas e humildes criaturas do tempo e do espaço, as mais limitadas, têm dificuldade para imaginar uma personalidade que careça de um suporte físico visível. Mas eu vos digo que a personalidade, incluindo vosso caso, é independente da matéria onde habita.
– Mais adiante, quando seguirdes ascendendo até o Pai, tua personalidade, Jasão, continuará viva. Mais viva do que nunca, apesar de ter perdido o corpo que agora tens. Serão tua mente e teu espírito que irão forjar e dominar essa personalidade.
– Na verdade, isso está ocorrendo neste instante.
Sorriu de leve e nos fez outra revelação.
– É cedo para que o entendais na plenitude, mas em verdade vos digo que a personalidade humana não é outra coisa senão a sombra do Pai projetada nos universos. O problema, insisto, está em vossa finitude. Estudando essa "sombra" jamais chegareis a descobrir o "proprietário" e causador da mesma.
Ficamos em silêncio, pensativos. Tinha razão. Se alguém pretendesse estudar um ser humano através de sua sombra, simplesmente perderia seu tempo…
– Mas não desanimeis. Tudo em seu momento. Chegará o dia em que estareis na presença de Abbã. Então, só então, começareis a compreender e a compreendê-lo. Se Ele não tivesse essa personalidade, o grande objetivo de todos os seres vivos seria estéril. E sua personalidade, apesar da infinitude, que faz o "milagre".
Vol.6 | Pag.395 | 21/08/0025
– Um longo caminho… Muitos, em nosso mundo, pensam que o "barbudo" os espera do outro lado da morte.
Jesus, alegre, ouviu os argumentos de meu amigo.
– Dizem e acreditam que os justos serão recebidos de imediato em sua presença. Tu, por outro lado, falas de um longo caminho…
Naquele instante - coincidência? -, uma enorme e bela mariposa quadriculada em branco e preto, uma Euprepia oertzeni, atraída pela luz da fogueira, foi pousar na ponta do galho com o qual brincava o Mestre. E Jesus, aludindo ao belo espécime, respondeu assim:
– Dize-me, querido anjo, achas que essa criatura está em condições de compreender que um Deus, seu Deus, a está sustentando no ar?
– Não, Senhor. A distância é grande demais… Então, agitando o pedaço de pau, a obrigou a voar.
– Tu o disseste. A distância é grande demais. Pois bem, aquela que agora te separa de Abbã é infinitamente maior. Se um mortal fosse transportado, depois da morte, à presença do Pai, em verdade te digo, reagiria como essa mariposa. Não saberia, não teria consciência de onde está nem de quem a sustenta no ar…
E acrescentou feliz.
– Felizmente, vós sois muito mais que uma mariposa. E podeis estar seguros do que digo: chegará o dia, quando tiverdes crescido espiritualmente, quando tiverdes progredido, em que vereis o Chefe e compreendereis.
Vol.6 | Pag.406 | 21/08/0025
Sobre Suicídio ou Assassinato
– O que acontece com a "centelha" quando alguém mata seu próprio irmão ou se suicida? O engenheiro, nervoso, esboçou um sorriso.
– Isso… O que acontece com a "criatura" quando ela tira a vida de alguém?
– O mais triste e lamentável, meu querido anjo, não é só que atente contra a vida, patrimônio exclusivo da divindade, mas que de repente e inadvertidamente, suspendas o trabalho da "centelha".
– Literalmente, a deixas órfã.
E ponderou:
– Um gesto assim atrasa, mas não suspende a escalada em direção ao Pai. Permiti que eu insista: sois imortais. Ninguém pode privar-vos dessa herança. Abbã a entregou para vós adiantado.
Vol.6 | Pag.439 | 08/09/0025
– Não, Jasão. O céu, tal e como vós o interpretais, tem pouco a ver com o "outro lado".
E assim, magicamente, começou a falar de "alguma coisa" que eu nunca quisera enfrentar. Uma realidade, contudo, da qual ninguém escapa.
Meu irmão, percebendo parte do acontecido, deu de bandeja o tema para Jesus:
– Já que falas da morte, Senhor, dize-me: não te assusta?
A resposta foi categórica. Fulminante.
– Responde primeiro a outra pergunta: te assusta dormir?
– Não, mas não vejo a relação…
– É a mesma coisa.
– Morrer é dormir?
– Assim é, meu querido "ajudante". Só isso.
– E depois?
– Depois… a vida!
A palavra utilizada pelo Galileu - hay - não deixava dúvida alguma. Hay = vida.
– Um momento - despachou Eliseu, muito consciente da gravidade do que se discutia ali -, falas sério ou em parábola?
Jesus segurou o riso.
– Muito sério…
– Certeza?
– Toda certeza!
– Repete outra vez. Isso é certo?
O Mestre esperou alguns instantes. Apagou todos os sinais de sorriso e com a fisionomia grave, muito grave, exclamou:
– Yassib!
Para esse termo aramaico, que eu saiba, só existem duas traduções: "certo" e "verdadeiro".
– Certo! - Repetiu o Rabi -, eliminando qualquer desconfiança.
Silêncio sepulcral… Não havia melhor definição.
Eliseu e eu nos olhamos. Diante de semelhante e categórica afirmação, só cabia acreditar ou não acreditar. O problema era que aquele Homem jamais mentia. Se Ele garantia que depois da morte existe vida… não tínhamos alternativa. Existe vida!
Vol.6 | Pag.442 | 08/09/0025
– Compreendeis agora por que vos peço com tanta insistência que VIVAIS a vida? Entendeis por que eu disse que estou aqui para experimentar a existência humana?
– Deixai-me adivinhar. Parece simples…
Olhei para minhas mãos e me arrisquei.
– Esta forma de vida é única. Lá, nesses mundos especiais, teremos outros "corpos"… diferentes. Não poderemos viver como agora. A isso te referes? Estás falando, Senhor, em apreciar e aproveitar esta oportunidade? Estás dizendo que VIVAMOS a vida porque não desfrutaremos de outra semelhante?
Não respondeu. Ele nos deixou em suspense por alguns segundos e, ao perceber nossa ansiedade, sorriu feliz, exclamando:
– Perfeito, Jasão! VIVEI intensa e generosamente. Saboreai a vida. Desfrutai cada instante. Sabei que esta oportunidade, como dizes, é única. Nunca voltareis a este estado. Amai a vida. Respeitai-a.
– Compartilhai-a. Usai-a com inteligência e moderação. Eu vos dou um presente do Pai.
– E aí, Senhor, o que devemos fazer?
– Estou te dizendo, mas não ouves: acordar.
– Mas para quê?
– Para a verdadeira, a definitiva vida. Aí começas. Aí disparas em direção ao Pai.
– Lá se trabalha?
– Claro que sim, embora a princípio todos vós necessitais de uma "limpeza".
Notou nosso espanto e esclareceu:
– Quando estiverdes acordados nesse mundo, tudo, praticamente, será idêntico ao que acabais de deixar aqui. Eu vos repito: é um simples despertar. Mas os defeitos e vícios da natureza humana continuarão pesando… em parte. E os meus se ocuparão então de "limpá-los". Não vos preocupeis: a "cura" é rápida e indolor.
– Compreendei: nessa outra realidade não cabe a densa e incompetente herança que arrastais. Sereis preparados para um longo, muito longo caminho em direção ao Chefe. Um caminho cada vez mais esplêndido. Um caminho no qual, pouco a pouco, a luz irá dominando a matéria. E chegará o dia em que só sereis isso: luz.
– Então veremos o Chefe…
– Tranqüilo, rapaz! Verás o "Barbudo"… no seu devido tempo.
– Metade luz, metade matéria… E como se sustenta essa matéria? Come-se do "outro lado"?
Jesus parecia estar esperando a pergunta de Eliseu.
– Se come e se bebe… mas não como tu acreditas.
Como dizia o Mestre, "quem tiver ouvidos…".
– Sereis como anjos…
– Com esposa ou sem esposa?
– Haja paz!. Eu te dizia que nessa nova realidade não se precisa de sexo, tal como o entendeis na Terra. Ali não existem essas inclinações. Entre outras razões, porque a carne, o corpo material não passa ao "outro lado". Aqui fica e aqui desaparece.
Vol.6 | Pag.445 | 08/09/0025
– Dizes que somos imortais. Assim nascemos. Então por que não ressuscitamos por nós próprios? Por que precisamos dos teus anjos?
Jesus tropeçou de novo no grande problema: a limitação da mente humana. Eu ansiava saber, mas reconheço que talvez estivesse me aventurando em questões que iam muito além do meu parco conhecimento. Ainda assim, o Rabi tentou.
– Filho meu, não é muito o que te posso dizer… Por enquanto. Há criaturas do tempo e do espaço que nem sequer têm inteligência. Por múltiplas razões se vêem privadas de um mínimo de espiritualidade. Muito bem, segundo o estabelecido por Abbã, esses humanos não são "despertados" depois da morte. Devem esperar, num sono coletivo, que chegue sua hora.
– E não perguntes mais. Aceita minha palavra.
– Um sono coletivo?
Acho que entendi então uma das misteriosas frases do Ressuscitado, pronunciada em 5 de maio do ano 30, na aparição na casa de Nicodemos, na Cidade Santa:
“… Mais que por isto (referia-se à ressurreição), vossos corações deveriam estremecer é pela realidade desses mortos de uma época que empreenderam a ascensão eterna pouco depois que eu abandonei o túmulo de José de Arimatéia…"
– Só um problema, Senhor. Muitos outros seres dispõem desse mínimo de inteligência e espiritualidade. Por que não ressuscitam por si próprios?
– Já falamos nisso, meu querido e esquecediço anjo. Sois imortais, sim, e por direito próprio. Assim o quis Abbã. Mas não confundas imortalidade com vida.
– Não compreendo… Não é a mesma coisa?
– Sim e não. A vida sempre precede a imortalidade. Esta, de forma definitiva, depende daquela. E não esqueças que a vida é uma prerrogativa do Pai. Eu disponho desse poder por sua imensa generosidade. Vós, ao contrário, não estais capacitados para colocá- la em pé…
– Queres dizer que o homem nunca criará a vida?
– Assim é. Enquanto pertencer ao reino do material… nunca conseguirá fazer isso. Nunca!
Aquele "nunca!" soou contundente. Eu dizia até premonitório.
Um aviso… para nosso mundo. E acrescentou com idêntica contundência:
– Não esqueçais: a vida é sagrada. É patrimônio do Pai. Abortá-la, suprimi-la ou feri-la é um desprezo a quem a entrega… gratuitamente.
Vol.6 | Pag.446 | 08/09/0025
Nossas Memórias
– Senhor, se o corpo fica aqui, na terra, o que acontece com a memória? Quando passar ao "outro lado", quando teus anjos me ressuscitarem, lembrarei deste "lava-pratos"?
O Mestre, suavizando o tom, respondeu:
– No "outro lado", lembrarás e serás lembrado. Reconhecerás e serás reconhecido. Nenhuma das tuas qualidades se perderá.
Vacilou um instante e, sarcástico, ponderou:
– Este de "ajudante de cozinha"… não sei.
– Lembrarei de tudo?
– Tudo o que valer a pena. Tudo o que te emocionou e serviu para progredir. O resto, as tendências puramente animais, os vícios e defeitos desaparecerão com o cérebro físico.
Reencontraremos os Entes Queridos?
– A propósito, senhor, veremos lá os nossos pais?
– Claro que sim, Jasão. Teus pais e todos teus entes queridos. Eles te ajudarão, mas, insisto, aquele lugar não é como este. Lá não existem laços familiares, tal como vós os interpretais aqui na Terra. Nesses mundos não há lugar para conceitos como "pai", "família", "esposa" ou "filhos". Sois como anjos!
Ele nos olhou e ao perceber certa decepção em nossos rostos, esclareceu:
– Nessa nova realidade em "MAT-1" como tu dizes, o Amor é tão pleno, intenso e limpo que os pequenos Deuses não sentem falta dos antigos e limitadíssimos afetos humanos. Vossa alma livre, ficará tão deslumbrada que nada do que agora considerais vos fará sombra. Eu vos repito: tereis entrado numa aventura fascinante.
Vol.6 | Pag.448 | 08/09/0025
Só se morre uma vez
– E depois? O que acontecerá quando, enfim, eu for um "homem- luz"?
– Surpresa!
– Já entendi… Verei o Chefe.
O Mestre, maldoso, negou com a cabeça.
– Não? Então está muito longe!
– A propósito, Senhor - eu entrei de novo na conversa, levantando um assunto que, pelo menos para mim, ainda não estava claro -, nesses mundos, ao passar de um "MAT" a outro, morre-se de novo?
O Galileu sorriu e, olhando para mim como se eu fosse uma criança, sentenciou contundente:
– Não.
– Então, só se morre uma vez…
– Exato. Eu já vos disse: Abbã é poderoso, mas prefere a imaginação.
Vol.6 | Pag.449 | 08/09/0025
– Por que ninguém volta depois da morte?
– Estás enganado. Eu o farei.
– Não é isso… Eu me refiro ao "destroça-patos".
– São as regras. Vós também tendes as vossas…
– Que céu mais estranho…
– Não, meu querido "ajudante", isso não é o céu. Eu vos disse: tendes uma idéia equivocada. O céu, o Paraíso, está muito além. Agora é impossível para vós entender sua autêntica natureza. Nos mundos que vos aguardam depois da morte só podereis intuir essa imensa, imensa maravilha.
Vol.8 | Pag.416 | 30/01/0026
– Se dizes que o tikkun é traçado (?), e aceito antes de nascer, isso quer dizer que admite a reencarnação…
– Me diga, malak, meu Pai é santo?
– Você ensina que Abbã é perfeito, embora não sei muito bem em que consiste a perfeição…
Sentiu-se satisfeito, e concluiu:
– Uma das características da santidade, ou da perfeição, como você diz, é que jamais repete.
Convidou-me a contemplar o céu estrelado e perguntou, de novo:
– Pode me indicar duas criaturas iguais na natureza?
Ele insistiu:
– Há duas gotas gêmeas? Nem sequer as palavras que saem de sua boca são frutos dos mesmos pensamentos. Nenhuma é como a anterior…
E sorriu, benevolente.
– Não deves fazer Deus à tua imagem e semelhança… Nós já dissemos: só se morre uma vez…
Vol.9 | Pag.283 | 27/01/0026
– Não tens medo? - comecei.
– Por que teria?
Apesar do que eu havia visto e do que sabia, aquele Homem me surpreendia a cada momento. Respondeu à pergunta sobre a morte sem que eu a mencionasse especificamente. É fácil resumir e difícil de aceitar: Ele sabia tudo. Desde a recuperação de sua divindade, no monte Hermon, sabia tudo.
– Todos têm… temos - retifiquei. Sorriu.
– Tu, melhor que ninguém, sabes que voltarei da morte.
Deixou que eu refletisse sobre essa grande verdade. Depois, com a mesma suavidade, prosseguiu:
– O homem teme a morte porque acredita que é o fim.
– E não é?
– Sim e não.
– Sim e não?
– É o fim desta vida, mas não da vida. Na realidade, a vida, a verdadeira, começa antes da vida e continua depois da vida.
Eu me perdi.
– Um momento… A vida começa antes da vida?
– Isso mesmo, querido malak.
– Mas como vou estar vivo antes da vida?
– Estás.
Aquela segurança me deixou perplexo. Jesus jamais mentia. Não prosseguiu. Entendi.
– E depois da vida?
– Já falamos disso, recordas?
Perfeitamente. No Hermon, Eliseu propôs uma teoria interessante e singular: os chamados mundos "MAT".
– Sim, eu lembro. Segundo tu, depois do doce sono da morte, despertamos em outro lugar.
O Mestre se adiantou:
– Vivos! Despertareis vivos.
– Quando dizes "vivo" te referes a… vivo?
– Claro. A que outra coisa poderia me referir?
– Não sei… Contigo, nunca se sabe.
Riu. Eu havia conseguido algo importante. O Galileu estava descontraído. E me dei por satisfeito.
Mas o Mestre não havia terminado.
– Aliás – acrescentou, – não se trata de uma "teoria", embora seja interessante e singular.
Fez novamente. Dessa vez, entrou em meus pensamentos e em algo mais: no que eu escreveria um tempo depois. E perguntei, como um perfeito tolo:
– Não é uma teoria?
– Não é. Trata-se de algo físico, que poderás constatar. Tu te levantarás da morte como se a vida houvesse sido um sonho. Despertarás de um sonho para voltar à realidade.
E repetiu algo que acabava de enunciar:
– A vida, a verdadeira, começa antes da vida e continua depois da vida.
Não importava não entender. Ouvi-lo era tão relaxante e tão esperançoso…
E comentei quase para mim:
– Como podes ter certeza do que afirmas? Como saber que viverei depois da morte?
– E tu perguntas? Tu, que me viste depois de morto?
– Sim, mas…
– Entendo. Trata-se de uma experiência pessoal, que ninguém vai viver por ti. Mas pelo menos confia. Sabes que não minto.
Disso dou fé. Jesus jamais mentiu, nem se enganou. Nunca, que eu saiba ou recorde, teve que retificar.
– Então, após a morte, desandaremos o caminho da perfeição.
A frase não era minha. Pertencia a Aristóteles (Metafísica, livro VIII). Mas o Mestre também havia lido o filósofo grego e disse:
– O corruptível, querido mensageiro, não faz parte do eterno.
E acrescentou com aquela segurança que desarmava:
– Após a morte, não se desanda nada. Segue-se rumo à perfeição, ao Pai Azul.
E eu, teimoso, voltei a Aristóteles (Livro XI):
– Então, ao morrer, volto para Deus.
– Não exatamente. Recorda que Ele já está em ti. Para chegar ao Pai - também falamos disso -, precisas consumir muito, muitíssimo "não tempo". Ele te espera, fisicamente, no Paraíso, mas não tenhas pressa. A eternidade é um tapete vermelho em que pisarás no instante da morte.
E tentou se aproximar da verdade, uma vez mais:
– Eu não deveria falar de "instante", e sim de "não tempo".
– A morte - murmurei - é uma experiência pessoal. Gosto disso.
– E única. Só se morre uma vez.
Algumas filosofias não dizem isso.
– Os conceitos orientais e pitagóricos sobre a reencarnação ou a transmigração das almas são apenas sonhos humanos. A verdade, amigo meu, é muito mais fantástica. O Pai pensou em tudo. Deixa que Ele te surpreenda.
E em vez de continuar por esse interessante caminho, recém- aberto pelo Filho do Homem, insisti:
– Morrerei sozinho.
– É a lei. Morrer é pessoal. Ninguém morre acompanhado, mesmo que pareça. Por essa porta, só passa um de cada vez.
– Eu sei, é a lei, como dizes.
– A morte, malak, não é um capricho. É a melhor maneira de abandonar um sonho.
– E não teria sido melhor não morrer?
– Começas a parecer teu irmão.
Ele estava com a razão. E acrescentou:
– Morrer não é tão importante. É abrir uma porta, só isso. Por que te preocupas tanto?
Eu não soube o que responder, mas não queria morrer; não naquele momento.
– Morrer, e quero que o transmitas assim, é despertar, por fim.
– Despertar?
Eu conhecia a resposta. Ele acabava de expô-la, mas, como disse, gostava de ouvi-lo. Era um bálsamo.
– Está bem. Como quiseres. Morrer é despertar para a realidade. O que agora vives é real, mas não é a realidade final, a que realmente conta.
E acrescentou, baixando o tom de voz, como se pretendesse que as estrelas não o ouvissem:
– O sistema está tão bem montado, querido malak, que o ser humano acredita que a vida é a única coisa que tem.
Meu Deus! Quanta razão!
– Assim é porque o Pai assim programou. É a única forma de o ser humano viver a vida com intensidade. Se ele tivesse certeza de que há outra realidade, outra vida, não viveria com o mesmo interesse. Compreendes?
Precisei de um tempo para entender.
Estamos aqui, no mundo, na matéria, na imperfeição, para viver o que não poderemos viver nessa outra "realidade", a do universo invisível do "não tempo". Estamos aqui para saborear o tempo e a limitação. Foi o que deduzi de suas palavras (sábias palavras).
– E, quando chegar a hora, o Pai Azul aparecerá e tu ficarás arrebatado por seu amor, por sua sabedoria e por saber que Ele nem sequer é o fim.
Não fui ágil. Não soube perguntar sobre a última parte de sua exposição. O que significa que o Pai "nem sequer é o fim"?
Fui inepto, uma vez mais.
– Ele está em mim, bem sei. Tu me revelaste isso. Ele é a "centelha" que me habita, certamente. Mas, como, além de tudo, Ele me espera no Paraíso? Está dentro e está fora?
– Não podias definir melhor. Um dia, quando chegar tua hora, descobrirás que "dentro e fora" são a mesma coisa no "não tempo".
Vol.9 | Pag.867 | 01/02/0027
Os pitagóricos e os yamabushi - que viajavam juntos por comodidade - também perguntaram o que faziam aqueles três "loucos" no topo do Makkuk.
Jesus respondeu por nós e assegurou que éramos arautos.
– Mensageiros de quem?
E o Mestre falou de Abbã, de seu caráter e natureza benéficos, do presente da alma humana, de sua imortalidade (acontecesse o que acontecesse), da fraternidade entre os homens (base de todo o planejamento ético) e sobre o formidável destino da humanidade.
Eles o olhavam, perplexos.
– Condenados a serem felizes?
A segurança daquele Homem quando falava era tamanha que ninguém soube o que argumentar contra.
– Sim, condenados à felicidade, e não vai tardar…
– Como é isso?
– Quando abandonardes este mundo e regressardes à realidade, à montanha das montanhas, será tal o achado que não haverá nem palavras…
Havia tanta convicção no que afirmava que um dos adoradores de montanhas, o que chamavam de Haguro, acabou comentando:
– Falas como se conheceste a esse Deus…
Jesus respondeu no mesmo instante:
– Eu o conheço…
Um dos pitagóricos protestou:
– Nenhum humano pode ver os deuses e continuar vivo…
– Disseste bem: nenhum humano…
O Mestre se dispunha a ampliar a sugestiva afirmação, mas outro dos missionários desviou o assunto:
– Tu és, talvez, como Pitágoras?
– Sou diferente…
– Tu também te lembras de tuas encarnações anteriores?
– O Pai não solicita isso de nós…
– O que queres dizer?
– O que ouviste…
– Mas tu crês ou não na transmigração das almas?
– Não é necessária.
Eles mudaram de lugar, inquietos. E iniciaram um ataque a toda a força. Enumeraram as razões pelas quais entendiam que a reencarnação era necessária e, inclusive, justa. Um dos argumentos era a necessidade de aprender:
– São necessárias muitas vidas para assimilar o que nos rodeia e, sobretudo, para crescer espiritualmente…
O Filho do Homem escutou atentamente. Então, sem dizer uma palavra, se levantou e caminhou até os pilriteiros.
Eles tinham certeza de que o haviam convencido…
O Galileu voltou, e com várias flores brancas nas mãos. Mostrou a eles as flores e perguntou:
– O que estais vendo?
– Flores…
– E em que elas se converterão quando o momento chegar?
Os pitagóricos e os orientais olharam uns para os outros. Eles não entendiam aonde Ele queria chegar.
Jesus insistiu:
– Em que elas se transformarão?
– Em drupas…
– Sim - manifestou outro dos yamabushi -, em frutos redondos e de cor vermelha.
– Frutos! - exclamou o Galileu.
– Isso é maravilhoso! Isso é um milagre!
Seguiam (seguíamos) perplexos. Sobre o que Ele estava falando?
– Não entendo, rabi…
Mateus expressou o sentimento geral.
– É muito simples - replicou o Filho do Homem. – Alguém pode me dizer como se obter fruto de uma flor? Não é maravilhoso?
Assentiram timidamente.
– Em verdade eu vos digo que nem com um milhão de vidas poderíeis imaginar uma coisa assim…
Comecei a entender.
O Mestre falava da impossibilidade da mente humana de aproximar-se do segredo da vida e da criação em geral. Nesse aspecto, a reencarnação não é a solução.
Mas ele sugeria algo mais…
Jesus estava invocando o imenso poder imaginativo do Pai. Quem no século XX, com toda a nossa tecnologia, seria capaz de transformar uma simples flor de pilriteiro em uma saborosa drupa vermelha? Quem dispõe de um poder e uma imaginação semelhantes?
E o Homem-Deus insistiu:
– Por que a madeira flutua?
Não sabiam. Jesus deu a resposta:
– Porque Alguém o imaginou…
("Alguém" deveria se escrever com maiúscula.) E seguiu perguntando e respondendo:
– Por que o mar não se cansa?… Porque alguém o imaginou assim. Por que existe a verticalidade?… Porque alguém o imaginou. Por que a morte?…
O silêncio se fez mais denso. Jesus falou decidido, sem medo:
–… Porque alguém o imaginou… Porque é a melhor maneira de voltar à realidade…
Abriu os braços, elevou o olhar para as estrelas e resumiu:
– Pura imaginação!
– Quer dizer: tu não admites a reencarnação…
– A imaginação de Abbã está acima do entendimento humano…
– Não respondeste à questão…
– Eu a respondi sim, estimado amigo, respondi sim… Nem em um milhão de anos, nem em um milhão de vidas, será possível beber este mundo e muito menos o universo…
– Mas nós estamos aqui para aprender…
– Não exatamente. Estamos aqui para experimentar, o que é diferente.
Eles estavam desconcertados. E o Galileu prosseguiu:
– E quanto ao enriquecimento espiritual, é verdade que a alma deve abandonar a imperfeição com um máximo de sabedoria. Mas quem lhe traz isso não é a aprendizagem, ou o estudo, nem a contemplação, nem a comunicação entre os homens… Quem dá isso é a experiência: é estar cheio ou vazio… É uma questão pessoal, previamente estabelecida com o Criador.
Eu estava tão surpreso que não sabia o que dizer.
Uma coisa era clara, claríssima: o conceito tradicional da reencarnação (tal como entendem as filosofias orientais) é uma invenção humana, e, além disso, de voo curto e baixo. Em outras palavras: só satisfaz algumas dúvidas…
O Mestre me olhou, leu os meus pensamentos e exclamou:
– O Pai é imaginação. Ele faz com que a água flutue nas nuvens, sem que ninguém tenha que segurá-la, ou tornar-se branca quando desce em forma de neve. Ele arranca reflexos do interior das pedras e obriga o alvorecer a ser pontual… Em verdade eu vos digo que o que vos aguarda após a morte vos fará tremer de emoção… Não há palavras para descrevê-lo, nem nunca haverá.
Haguro, visivelmente emocionado, proclamou:
– Não sei se estás louco, amigo, mas tua loucura sacia a minha sede…
– Quanto mais cresceres - respondeu o Mestre, – mais se diluirá a tua realidade, e maior será a tua sede…
– Por isso nós buscamos subir à montanha…
– Buscar ao Pai é subir ao HaMaqom…
Foi a primeira vez que ouvi esse termo. Poderia ser traduzido como "Lugar", no qual habita o incomensurável.
Os estrangeiros permaneceram no Makkuk por mais dois dias. Estavam entusiasmados e Jesus de Nazaré mais ainda.
O Mestre falou de Abbã, do reino invisível e alado, do que nos espera após a morte (o que Eliseu chamava de mundos MAT), da necessidade de "escalar" o interior, do dom, do presente do Pai (a imortalidade, aconteça o que acontecer), da necessidade de viver (apesar e acima de tudo), e de fazê-lo sempre no presente (o futuro não existe) e, principalmente, falou do mais importante e benéfico: a consagração da vontade do bom Deus, o Número Um.
Vol.9 | Pag.945 | 29/04/0027
Pergunta de Flávio, o comerciante grego colecionador de artes:
– Por que nós envelhecemos, Mestre? O que é o tempo?
O Galileu ficou sério. Permaneceu em silêncio durante uns segundos. Passeou para cima e para baixo, contemplando os artefatos e acreditei entender a sua impotência na hora de dar uma explicação medianamente compreensível para a mente humana. Não tinha outra saída senão apelar para os exemplos. Definitivamente, praticar o que Ele chamava "aproximação da verdade". Era como se este explorador tivesse que tentar explicar nossa "viagem" ou a realidade dos swivels aos gêmeos Alfeu ou ao próprio Flávio. Como se pode fazer alguém compreender que a luz precisa de oito minutos para chegar até o Sol, ou que, em 1973, eu poderia falar de Jerusalém com outra pessoa, localizada em Roma e em tempo real?
No entanto, Jesus de Nazaré não gostava de refugar as perguntas. Quase sempre respondia. Outra questão é se seus interlocutores compreendiam ou não. E eu me incluo nisso…
Finalmente, colocou-se à frente de Flávio, pôs as mãos sobre os ombros do inquieto judeu e proclamou com ternura:
– Por que tu te preocupas com o tempo se, na verdade, és imortal?
– Não gosto de envelhecer…
– Envelhecer é dar passos de encontro à eternidade. Tu deverias sentir-te feliz…
– Oh!
Flávio e o resto estavam desconcertados.
O Mestre compreendeu. Era belo demais e demais complexo para as pessoas amarradas às leis mosaicas. Tinha que ir passo a passo.
Vol.12 | Pag.237 | 30/09/0027
– Você fala do Pai Azul… Nós, os Melquisedeques, falamos do Altíssimo… Entendo que você e eu estamos falando do mesmo Deus, bendito seja o seu nome…
Jesus assentiu.
– …Você fala de um Deus amoroso, – o velho continuou, – e nós também. Mas, entre você e nós, há uma grande diferença…
Claro, pensei. Ele é um Deus. Ele é o nosso Criador…
Mas Aba Saul pensou em outro assunto…
– Você não teme nada… Nós, ao contrário, tememos a velhice, a solidão e, sobretudo, a morte.
O Galileu apressou-se em perguntar ao hakam:
– Porque? Por que você teme a velhice?
Jaiá falou corajosamente, como sempre:
– A velhice é escuridão… Tudo ao nosso redor se apaga.
Aba Saul pegou as mãos de sua esposa e beijou-as delicadamente.
Jesus balançou a cabeça e proclamou:
– Deveria ser o contrário… No fim da vida tudo se ilumina, tudo se compreende, tudo se perdoa, tudo se espera… O fim da vida é leve. Uma luz nova e promissora. Estamos mais perto de "voltar" ao nosso verdadeiro lar. Alegrai-vos!… No fim da vida a alma encheu-se… Não tenhais medo!… É tempo de recolher.
– Mas por que temos que envelhecer?
O Mestre olhou docemente para Jaiá, e disse:
– Está estabelecido. É a Lei. É a sabedoria do Pai Azul… Você experimentou. Você viveu. Seu corpo exige um fim. Não seria bom para você continuar assim, indefinidamente. Você merece algo especial e glorioso. Algo novo e jovem novamente.
– Esta nova forma corporal – que o fascinará – espera por você depois do doce e benéfico sono da morte.
– Mas a velhice, - insistiu Saul, - apaga a memória…
O Mestre fez outra revelação:
– Não importa se eu apago… O nitzutz (a centelha divina que nos habita) zela para que a memória não desapareça. Ela, a centelha, copia suas memórias…
Dessa vez fui eu quem perguntou:
– O nitzutz copia a memória?
Jesus sorriu, divertido. E ele assentiu, silenciosamente.
Uau… Isso era novo para mim. Aconteça o que acontecer, as memórias permanecem intactas. Pareceu-me uma medida muito prudente por parte do Pai Azul. Posteriormente, já nos mundos MAT, as memórias são incorporadas ao novo corpo.
– A velhice isola…, insistiu a velha.
O Rabi não permitiu que ele continuasse:
– A velhice isola, sim, mas a seu favor… E a velhice te isola para que você pense – necessariamente – na morte.
– Não quero nem pensar nisso, Jaiá protestou. Não quero…
– Bem, você deveria fazer isso, Jesus recomendou. Você deve fazê-lo… Isso é velhice: intuir que a morte está muito próxima… e que não é nada.
– Pensando na morte… Aba Saul murmurou. E o que eu ganho com isso?
– A morte, – respondeu o Galileu, – é o negócio da sua vida… Vale a pena treinar para esse negócio decisivo? Vale a pena você pensar nela, pelo menos uma ou duas vezes por dia?
Jaiá interveio, curiosa:
E o que devo pensar?
Jesus foi direto:
– Pense, por exemplo, que a morte é um sonho simples e benéfico… Nada mais. Pense que morrer é começar… Começar uma nova vida que não acaba… Pense que você vai continuar a viver… Pense que você finalmente entrará no reino do AMOR… Pense que, do "outro lado", uma felicidade que você não pode imaginar espera por você… Pense que, quando você morrer, você se reunirá – temporariamente – com seus entes queridos falecidos… Pense que a morte é o começo de outra aventura, a definitiva… Pense na morte como algo necessário e belo.
O Rabi fez uma pausa e olhou para seus amigos. Jaiá ficou perplexa. De onde o Galileu tirou essa segurança ao falar? Aba Saul assentiu em seu coração.
Mas o velho não resistiu à tentação e levantou a questão capital:
– Quem é você realmente?
O Mestre foi rápido e sincero:
– Sou um enviado, como o foi o seu admirado Melquisedeque… Estou aqui para semear esperança. O mundo não está perdido. Alguém ama você. Chegará o dia em que você reencontrará o caminho da vida e da luz.
E finalizou com outra de suas palavras favoritas:
– Confia!!
Está tudo muito bem, admitiu Aba Saul, mas ainda estou com medo…
Jesus perguntou:
– Quando você vai dormir, você vai para a cama em silêncio?
Saul disse que sim.
– E você não entende que dormir é morrer todas as noites?
– Como é isso?
– O Pai Azul – eu te disse – é ótimo… E ele nos treina todas as noites para morrer. Esse é o sonho.
Jaiá aplaudiu o Filho do Homem.
E Jesus perguntou ao hakam:
– Quantos anos tens?
– Oitenta e um, respondeu Saul.
– Bem, – o Galileu simplificou, – o Pai Azul vem treinando você para morrer há oitenta e um anos… E ele faz isso todas as noites. Você deveria agradecer… Ainda mais: ter medo de morrer é um insulto ao bom Deus.
Aba Saul baixou os olhos. O Mestre estava certo; toda a razão.
– E você, a velha interveio, "não tem medo da solidão?"
Jesus olhou para ela com ternura. E ele respondeu:
– Eu nunca estou sozinho…
Mas, instantaneamente, ele corrigiu:
– Nunca estamos sozinhos…
Ele levou o dedo indicador esquerdo à têmpora e lembrou:
– Ele, o Pai Azul, vive em sua mente desde que você tinha cinco anos. Ele sabe muito mais sobre você do que você mesmo. Ele ouve seus gritos antes de você pronunciá-los.
Ele silenciosamente o guia sem que você saiba. Ele lhe dá as respostas que você precisa a cada momento. Ele te conforta sem palavras. Ele está ao seu lado nos bons e maus momentos. Ele é o silêncio, a música e a voz do seu amado. Ele espera muito mais de você do que você supõe. Ele é o piloto infalível que te guia rumo ao AMOR. Ele é o seu grande tesouro…
– Diga-me, interveio Jaiá, "alguém vive sem a nitzutz (a centelha)?"
O Mestre respondeu com algo que não entendi muito bem:
– Apenas alguns seres humanos – muito poucos – não precisam de nitzutz. Sua missão é diferente… O resto – a maioria – é habitado pela centelha divina…, necessariamente.
– Também os sem alma? Saul exigiu.
– Todos. Pobres, ricos, escravos, mulheres, velhos, cegos ou pagãos. Todos recebem a bênção do céu. O Pai Azul não faz distinções entre humanos. E os habita, um a um…
– Mas mesmo assim, lamentou Aba Saul, – é tão difícil descer os degraus da velhice…
– Desça-os com inteligência, o Mestre o encorajou. Desça-os sabendo que você está subindo…
– Você não tem medo da morte? o hakam insistiu.
– Já te disse: a morte é outro gênio do Pai Azul.
Jaiá ainda estava fascinada com a segurança daquele Homem.
– Um gênio? – perguntou –. Mas o que realmente é a morte?
– Já vos disse, respondeu Jesus. A morte é um doce sonho…
– Sim, a velha interrompeu, "mas o que mais?"
O Galileu olhou para os amigos e pediu a Jaiá que o acompanhasse.
Saul e eu nos olhamos intrigados.
O que ele estava fazendo?
A velha obedeceu e foi atrás do Filho do Homem.
Jesus parou no final do corredor, em frente à porta de entrada da casa. E convidou a mulher a abrir a dita porta.
Jaiá, intrigada, virou a cabeça para o marido e questionou Saul com os olhos.
Que fazia? Os gafanhotos ainda estavam lá fora…
Aba Saul não hesitou e a encorajou a obedecer ao Mestre.
Jaiá, então, determinada, pegou o pino e puxou a madeira.
E a porta se abriu…
Ouvimos o zumbido dos "gregários".
Jesus apressou-se em fechar a página e declarou:
– Isto é a morte… Abrindo uma porta.
Jaiá, deslumbrada, deu a Galileu o melhor de seus sorrisos.
E Jesus perguntou à velha:
– Teve medo?… Teve medo de abrir a porta?
A mulher negou com a cabeça.
Jamais esquecerei aquela conversa sobre os tatames em que uma mão misteriosa trançava os três círculos concêntricos: a bandeira de Michael, Deus do nosso grande pequeno universo. Michael: Jesus de Nazaré…
A morte é apenas abrir uma porta…
Vol.11 | Pag.117 | 05/02/0028
– Zenon, nosso fundador, e Crisipo, um de seus alunos, sustentam que a morte é a separação da alma e do corpo. O que você acha?
– Você diz certo, – respondeu o Rabi. – A alma, quando morre, viaja para longe… Mas não se dissolve, como Zenon pregou.
Hípias ouviu, muito atentamente.
– Quanto ao corpo, – continuou Jesus enquanto acariciava a laranja – é verdade que apodrece e desaparece, mas não volta à vida, como defendia o vosso senhor. Quando você morrer, terá outro corpo - um diferente.
Um dos discípulos de Yehohanan o interrompeu:
– Mas, Mestre, o que é a morte?
O galileu voltou-se para o jovem que estava perguntando e respondeu com uma segurança surpreendente:
– Acordar… Morrer é acordar.
Murmúrios de desaprovação soaram. Essas não eram as idéias judaicas ortodoxas sobre a morte. Eles pensaram que, três dias após a morte, um anjo se encarregaria da alma do falecido e a transferiria para o Sheol, um lugar escuro e remoto (no centro da Terra) onde nem mesmo a ira de Yaveh poderia alcançar.
Yu escreveu e escreveu…
Vol.11 | Pag.122 | 05/02/0028
– Você acha que a morte deve deixar o homem indiferente? Ou ele tem que temer isso?
O Mestre esvaziou o copo pequeno e respondeu ao filósofo:
– A morte, caro amigo, é uma invenção brilhante da Divindade. É a maneira menos ruim de desistir da carne. É a maneira de bater à porta no reino dos céus. Não tenha medo, mas também não procure. Chegará quando tiver que chegar; isto é, quando você tiver organizado…
Deixou os ouvintes de boca aberta. E ele esperou alguns segundos. Então ele acrescentou, com toda a intenção:
– É você, antes de nascer, quem programa a vida que deseja viver, incluindo a morte.
– Como é isso? O incrédulo Tomé interveio.
O Mestre estreitou os olhos. Ele parecia estar procurando as palavras certas. Mas ele não os encontrou ou, simplesmente, não quis responder. Ele acenou com a mão esquerda e deu a entender que era difícil e prematuro falar sobre o assunto. Compreendido. O tikkun ou "contrato" - sobre o qual Jasão escreveu - não era uma questão simples.
Hípias perguntou novamente:
– Você pode deixar este mundo sem morrer? Alguns riram, perplexos com a audácia do velho filósofo.
Jesus permaneceu sério e maravilhado com a inteligência daquele homem.
Finalmente, ele proclamou:
– Em verdade vos digo que sim…
Tomé balançou a cabeça. O Mestre captou o gesto do discípulo e veio até ele:
– Em verdade vos digo que houve homens e mulheres que tiveram sucesso. Mas, para deixar esta vida sem provar a morte, é necessária uma condição…
– Qual? Todos perguntaram em uníssono.
– Que sua alma se identifique com o nitzutz. Deixe-os ser uma criatura.
– Isso é fácil? Pedro estava interessado.
– Não.
– E como posso fazer isso? Yu interveio.
– Tente ouvi-la. Tente sentir a centelha que vive em você…
Vol.11 | Pag.200 | 01/03/0028
– Rabi, é possível retornar a este mundo após a morte?
– Não, Tomé…
Mas, segundos depois, Galileu fez uma pequena grande correção:
– Com exceções…
– Explique-se, perguntou o homem vesgo.
– Se você estiver autorizado, pode solicitar o seu. Mas será uma breve visita…
Tomé foi teimoso e questionou o Galileu novamente:
– Eu não entendo… Por que ninguém volta?
– De que adiantaria, – respondeu Jesus, – se você devolvesse um peixe morto ao mar?
E o Mestre expandiu - brevemente - o lugar que nos espera após a morte: uma "casa", como ele a definiu, na qual desfrutaremos de um novo corpo físico - ele insistiu na palavra "físico" - "nem material nem espiritual". Tínhamos conversado sobre isso no Hermón. Eu defini essa "casa" como "mundos MAT".
Vol.11 | Pag.375 | 17/11/0028
Pergunta de Bartolomeu sobre o futuro:
– O que é o futuro?
Jesus estava de excelente humor e notou:
– Você realmente quer saber?
O Urso disse que sim e o resto o apoiou.
– O futuro, meus filhos, – disse o Rabi, – é a arma usada pelos mentirosos…
Ficamos surpresos. Eu fui o primeiro… Curtiss só falou sobre o futuro. E ele continuou:
– O futuro não existe… Apenas o Pai Azul contempla isso em sua mente.
Tomé protestou:
– Mas então…
– Eu te disse, mas você não ouve… Viva no presente. Melhor ainda: viva o agora…
E ele terminou com uma confiança avassaladora:
– O resto, o futuro, não existe. Não confunda a realidade com seus desejos e sonhos. Atenção! Não se deixe enganar! Economize o dinheiro certo por enquanto, porque você não sabe o que vai acontecer no próximo agora.
Alguns discordaram do Rabi. A lei judaica e a tradição dos anciãos ensinavam o contrário: O amanhã deveria ser preservado como uma noiva. E Jesus, lendo em seus corações, insistiu:
– O futuro nasce de acordo com o interesse… Mas em verdade vos digo que ninguém a alcança.
Vol.11 | Pag.575 | 23/06/0029
– A morte é um segundo… Menos ainda… A morte é semelhante a um sonho e especialmente doce… É a coisa estabelecida… Ninguém volta… É proibido…, com exceções… E quem regressa fá-lo para semear esperança… Eu também voltarei…
A nova alusão à sua morte não foi compreendida. Eles se entreolharam, incrédulos, e o Rabi continuou:
– Quando você acordar nos templos da ressurreição, tudo será diferente e igual… Ser-vos-á concedido um corpo físico, sempre ao vosso gosto… E você será mostrado onde você está e por quê… No começo você vai pensar que é um pesadelo… Não é assim… Lá você será recebido por seus entes queridos falecidos… Mas cuidado, lá, no reino invisível e alado, não há parentesco… Não há pais, maridos, irmãos, filhos… O amor - lá - é tudo, mas não como neste mundo… Neste reino fantástico, a reprodução não é necessária… Não há sexo lá… Eu também te disse… Não posso explicar-vos a natureza desse amor… Não há palavras para descrevê-lo. Mas eu te digo a verdade, você não vai querer voltar. Ninguém faz… Não se preocupe: sua alma e sua memória serão guardadas após a morte… Ninguém vai tocá-los… E ao despertar nos templos de cristal, elas retornarão a você… E você saberá quem você realmente é… Você saberá que não é Pedro, Judas ou Tiago… Vocês são mais do que isso… Vocês são príncipes… Aquele lugar - onde você despertará do doce sono da morte – É semelhante a este… Mas apenas semelhantes… Não há sol, como você o conhece, mas não há escuridão… Há noite, mas não como você a conhece… Há comida, mas não como você a conhece… Você vai pesar menos, e cada vez menos… E lá você receberá as primeiras instruções para abandonar o pesado fardo dos vícios que o escravizaram nesta vida…
– Será uma liberação benéfica… Depois de um tempo sem tempo, você cruzará a primeira fronteira sem ter que morrer uma segunda vez… Isso acabou… Você só morre uma vez… E seu corpo físico será mais sutil… Lá - neste novo lugar - você aprenderá a pensar em apenas uma direção… E você entenderá o que é incompreensível para você hoje… Finalmente, depois de quase 600 saltos, você chegará ao final dessa etapa… Então, finalmente, você será leve… Só luz…, sem corpo físico e sem forma humana… Luz!! Luz que pensa e raciocina… Luz que se move e que pode estar em dois lugares ao mesmo tempo… E você continuará a aventura para o Paraíso, em busca do Pai Azul…
Vol.11 | Pag.782 | 09/03/0030
Sobre a morte de Lázaro
– Mestre, – perguntou o discípulo incrédulo, – se ele estava morto por quatro dias, o que aconteceu com sua alma? Onde ele estava?
Os judeus acreditavam que a alma permanecia no corpo dos mortos por três dias. Na sala, ela foi arrastada para o mundo do refaim (as sombras).
Jesus foi o mais claro possível:
– O Pai Azul o manteve dormindo. Isso é tudo que posso te dizer…
– Mas, insistiu Tomé, "o que aconteceu com a mente?" Você diz que, quando morre, se decompõe…
Sério, muito sério, o Galileu respondeu:
– Eu lhe disse: o Pai Azul colocou Lázaro para dormir…
– Eles lhe deram uma nova mente? O Urso interveio.
Pergunta interessante… Mas Jesus apenas balançou a cabeça negativamente.
– O que você lembra sobre a morte? perguntou Maria, a de Madalena.
– Nada, esclareceu o Rabi. Ele dormiu sem sonhos…
E a corajosa Maria Madalena perguntou um pouco mais fundo:
– Como é a morte? Ele tem olhos verdes, como dizem?
O Mestre olhou para ela, espantado.
– É como você quer imaginar, respondeu ele com confiança. Nós conversamos sobre isso… A morte é um sonho doce e benéfico do qual você não vai querer voltar…
E ele insistiu:
– Que você não vai querer voltar para… A morte foi outro golpe de gênio do Pai Azul. Só então você será capaz de continuar para o Paraíso.
– Lázaro morrerá pela segunda vez?
A interessante pergunta feita por Simão, o zelote, foi respondida com um breve e simples aceno afirmativo pelo galileu. O Cavalo de Tróia soube que Lázaro realmente morreu muito mais tarde, quando tinha sessenta e sete anos, e da mesma doença (possível malária).
Vol.11 | Pag.790 | 13/03/0030
Pergunta de Nasanta:
– Eu sou negra agora, mas quando eu morrer, de que cor eu estarei?
A mulher, evidentemente, não havia entendido nada. E Jesus explicou docemente:
– Depois do doce sono da morte, todos vocês serão luminosos…
– E por que não posso permanecer negra? A evangelista estava interessada.
– A luz, – respondeu Jesus, – é incolor, embora reúna todo o arco-íris… O importante é a cor da sua alma.
– E o que é isso? Milca, a mais bela, interveio. O Galileu se rendeu:
– Diga-me, Milca, qual é a cor do amor?
Não houve acordo. Cada um deu uma cor. A maioria pensava em azul.
Mas o Mestre deixou no ar… E o de Madalena interveio novamente:
– Eu fui uma prostituta… Quando eu morrer, poderei escolher outra profissão?
Ouvi murmúrios entre os homens; murmúrios ácidos e pouco caridosos.
– Claro, – o Galileu ergueu a voz, silenciando as fofocas.
– Todos, após a morte, escolhem o que mais lhe agrada…
– Em outras palavras, você trabalha!
Felipe gritou da cozinha. Os discípulos estavam de boca aberta.
– Você realmente trabalha? Pedro gritou, perplexo.
– E muito!
O Rabi acrescentou com um sorriso total.
– Os tolos serão espertos? O Urso estava interessado.
Todos apontaram para Pedro. E o Filho do Homem esclareceu:
– Ninguém, do outro lado, é mais esperto do que foi aqui.
E ele especificou:
– No momento… A corrida para o Paraíso é muito longa. Você terá muitas aventuras… Se eu te contasse alguma delas, você não acreditaria em mim…
– E eu, Mestre, gritou Felipe novamente da cozinha, "terei cabelo?"
Os que estavam reunidos lá o vaiaram. A risada foi tanta que o Urso começou a chorar.
– Você terá cabelo, – respondeu o Mestre, que não entrou em apuros… – e setenta sentidos!
Caramba!… Isso me interessou, e muito.
– Dê-nos um exemplo, Tomé perguntou corretamente.
O Mestre estava pensativo. E ele respondeu:
– Você vai ter olhos no pescoço…
Vol.8 | Pag.417 | 30/01/0026
Entendimento de Jasão sobre a morte e o conceito dos mundos “MAT”
A morte! A grande temida! A pior conhecida! Ele tinha absolutamente nítido: no mundo material não há outra forma mais sábia de terminar. Alguém toca no ombro e a alma "abre os olhos”. Isso é morrer. Em outros momentos deste diário utilizei a palavra "ressurreição". Certamente me equivocava. Ele explicou, tinha consciência da anemia das idéias humanas. E digo que eu estava enganado porque a alma, ao ser imortal, não pode ser ressuscitada. Digamos que experimenta (?) um processo de "transporte" (?), e que amanhece nos mundos "MAT", com um suporte fisico novo. Ninguém a julga. Não há prêmio nem castigo, no sentido tradicional. Em todo caso, uma imensa surpresa. "MAT-1" não é o céu, mas é infinitamente melhor que o que ficou para trás. E a alma compreende, finalmente: apenas cumpriu seu tikkun. Agora, em “MAT", deve prosseguir, sempre rumo à perfeição. O corpo é só uma lembrança, cada vez mais difusa. Nisso, as escrituras judaicass falam com razão: "… Volte o pó à terra, que o era, e o espírito volte para Deus, que o deu" (Eclesiastes 12, 7). A matéria orgânica (Ele falou de "vestimentas" ou begadim) é substituída por outro corpo físico, igualmente imaginado pelo Pai; isto é, impressionante: sem aparelho digestivo, circulatório, nem respiratório. Ele falou de uma maravilha que se move, que sente, e que também acaba, mas sem o processo da morte. Neste lugar, a passagem de um "MAT" a outro se registra por meios "diferentes". Não pude extrair muito mais. Nesses novos "trechos", a alma continuará como "recipiente" da personalidade. Simplesmente, cresceremos. E no final dos mundos "MAT", embora agora esteja fora de toda compreensão, a alma poderá "valer-se por si mesma". Isso significará que é "luz", e que terá retornado a sua "pátria", o mundo do espírito. Será então quando veremos o Pai. Melhor dizendo, será então, só então, quando seremos como Ele. "Omega é o princípio." E aquele distante, e primitivo, ser humano iniciará sua carreira como Deus Criador…
Vol.8 | Pag.405 | 17/01/0026
Esclarecimentos de Jasão sobre o conceito de alma no tempo de Jesus
Os judeus do tempo de Jesus, como já indiquei, estavam influenciados pelas doutrinas grega, persa e egípcia, especialmente no que diz respeito à concepção. Platão e Aristóteles ensinaram modelos diferentes de alma, localizando-os em três regiões do corpo: cabeça, peito e ventre. Minha amnésia, como se recordará, segundo os caldeus, ou adivinhos, tinha sua origem na possessão da segunda alma, a do tórax, por parte de um diabo feminino, Lilith. A esta confusão somou-se o próprio pensamento judeu, que construiu até cinco níveis de "alma": a meshamah (nishmah, em aramaico), ou "sopro" lançado por Jeová sobre Adão; nefesh, ou alma vegetativa (puro sopro vital); yehidah, ou alma superior, só alcançável pelos iniciados; hayyah, ou princípio da vida, e ruah, ou espírito. Para a maioria, nefesh era inferior, similar a alma dos animais, mas essa não procedia de Deus, mas da terra. Após o exílio, na Babilônia, o panorama se diversificou ainda mais, e surgiram os anjos e o sheol ("inferno"), complicando a situação das almas. Depois deu-se a influência oriental, em especial da atual China, com suas teorias sobre as almas superiores, ou hun, e as inferiores, ou po. No total, dez almas em cada corpo, com as mais diversas incumbências. Com a morte, todas se separavam, e aí começava o verdadeiro calvário. Reuni-las não era fácil. Umas permaneciam na tumba, com o cadáver. Outras - diziam - emigravam às Fontes Amarelas, no interior da Terra, ou eram mantidas nas prisões escuras do Conde Terra. Só algumas chegavam ao céu, e permaneciam junto ao Senhor do Alto. Como sempre, tudo era questão de dinheiro. Os ricos pagavam e garantiam a salvação, o mais próximo possível de Deus. Os sacerdotes entregavam um documento, que assim afiançava. O povo, porém, estava destinado às nove Escuridões, nas Fontes Amarelas. Seu resgate era quase impossível. A loucura sobre as almas chegou ao extremo de considerá-las quase como maçãs, ou romãs, pendentes da grande árvore da Vida, na região dos céus. Essa era outra das superstições judaicas. Jeová as fazia amadurecer na gigantesca árvore, cujos galhos se estendiam para os quatro pontos cardeais, com raízes de quinhentas
milhas quadradas. Quando estavam prontas para descer ao mundo, Deus as responsabilizava por cem chaves, equivalentes a outras tantas bênçãos. O trabalho da alma era fazer com que o ser humano as recitasse a cada dia. Mas nem todas as almas eram santas inicialmente. Segundo os ortodoxos judeus, algumas foram tentadas pela fêmea do grande abismo, e assim apareceram na Terra. Daí nasceu, em parte, a falsa crença cristã sobre o chamado "pecado original", atribuído a Eva e a seu companheiro, Adão. Se o portador da alma "pecadora" fizesse penitência, Jeová poderia perdoá-los (a ambos). Para outros doutores da lei, o perigo estava no sono. As almas - diziam - saíam do corpo durante o sono e viajavam pelo céu, em busca da árvore da qual haviam partido. Mas, no caminho, eram assaltadas pelas forças impuras e podiam cair na tentação. Ao acordar, as almas retornavam ao corpo. Se haviam pecado, o portador tinha que pagar. Assim prosperou o grupo dos interpretadores de sonhos, que fez parte importante do aparato religioso judeu. Os sonhos eróticos, por exemplo, eram um sinal inequívoco dos maus passos da alma durante a noite. Pecar, naturalmente, significava ofender Jeová, e isso, por sua vez, obrigava a passar no caixa (do Templo de Jerusalém, ou de seus representantes, os sacerdotes, no resto do país). A frase de Isaías (26, 9) - "Minha alma te deseja à noite" - não admitia discussão.